O que mais cai
| Parte do tópico | Importância | O que a banca cobra |
|---|---|---|
| Historiografia | Alta | Escola metódica, marxismo, Annales e suas gerações, micro-história, nova história cultural e os clássicos brasileiros |
Do que trata o tópico
A historiografia é a história da própria escrita da história: o estudo de como os historiadores, em cada época, escolheram suas fontes, suas perguntas e seus métodos. O tópico apresenta as grandes correntes, dos gregos antigos até a história cultural, e os autores que interpretaram o Brasil. Ele serve para o aluno reconhecer, numa afirmação ou num trecho, a corrente que está por trás de cada forma de contar o passado.
Conteúdo
Historiografia
Dois livros sobre a mesma guerra podem contar histórias muito diferentes. Um narra as batalhas, os tratados e as decisões dos generais, com base nos documentos oficiais. Outro estuda o preço do pão, a vida dos soldados comuns e as cartas que eles mandavam para casa. Os dois tratam do mesmo passado, mas cada um parte de uma ideia diferente do que é a história e de como ela se escreve.
A palavra historiografia tem dois sentidos. No sentido amplo, é o conjunto das obras escritas sobre a história, como a historiografia sobre a escravidão no Brasil. No sentido estrito, que é o mais cobrado, é o estudo crítico dessas obras: quem escreveu, com que fontes, com que método e com que visão de mundo. Por isso a historiografia mostra que o conhecimento histórico muda com o tempo, porque cada geração faz ao passado perguntas novas.
Alguns conceitos de base atravessam todas as correntes. A fonte histórica é todo vestígio do passado que o historiador usa como prova, e a fonte primária é a produzida na época estudada (uma carta, um processo, uma foto), enquanto a secundária é a obra que já interpreta o passado (um livro de história). O anacronismo é o erro de julgar o passado com valores, palavras ou objetos de outro tempo, como dizer que um camponês medieval era "atrasado" por não usar relógio. O fato histórico não está pronto no documento: o historiador o constrói a partir das perguntas que faz às fontes.
Das origens ao século XVIII
Na Grécia antiga, no século V antes de Cristo, Heródoto escreveu sobre as Guerras Médicas, entre gregos e persas, e recebeu o título de pai da história. A palavra grega historie quer dizer investigação, e Heródoto viajou, ouviu testemunhas e registrou costumes de vários povos, mas também incluiu relatos lendários. Tucídides, um pouco depois, escreveu sobre a Guerra do Peloponeso, entre Atenas e Esparta, com mais rigor: ele buscou causas políticas e humanas, sem intervenção dos deuses, e conferiu os relatos que recebia.
Na Idade Média predominou a história providencialista, em que Deus conduz os acontecimentos e o tempo é uma linha que vai da Criação ao Juízo Final. Santo Agostinho é o autor mais associado a essa visão. Os registros da época eram crônicas e anais produzidos sobretudo por religiosos nos mosteiros.
No Renascimento e no Iluminismo, a explicação religiosa perdeu espaço para a razão. Voltaire propôs uma história da civilização, dos costumes e das artes, e não só dos reis e das guerras. Os iluministas viam a história como um caminho de progresso da humanidade guiado pela razão.
A escola metódica do século XIX
No século XIX, a história virou disciplina universitária e quis ser ciência. O alemão Leopold von Ranke defendeu que o historiador deve mostrar o passado tal como aconteceu, apoiado no documento e sem julgamento pessoal. Na França, Charles-Victor Langlois e Charles Seignobos escreveram o manual de método dessa corrente, a escola metódica.
O método tinha um centro: a crítica documental, em duas etapas. A crítica externa verifica se o documento é autêntico, isto é, quem o fez, quando e onde, e se não é falso. A crítica interna verifica se o conteúdo é confiável, isto é, se o autor tinha como saber o que diz e se tinha motivo para mentir. Só depois dessas etapas o historiador reunia os fatos numa narrativa.
As características da escola metódica são cobradas em conjunto:
- documento escrito e oficial como fonte principal (sem documento, não há história);
- fato político, militar e diplomático como objeto;
- os grandes homens, como reis, generais e estadistas, como protagonistas;
- narrativa em ordem cronológica, de acontecimento em acontecimento;
- neutralidade do historiador, que deixaria os documentos falarem por si.
No Brasil, provas e livros chamam essa corrente de positivista. O nome vem do positivismo de Auguste Comte, que buscava leis gerais da sociedade, mas a escola metódica não buscava leis: ela queria estabelecer fatos. A banca usa os dois nomes como sinônimos, e o aluno deve reconhecer pelas características, e não pelo nome.
O historicismo, também do século XIX, defendia que cada época deve ser compreendida nos seus próprios termos, e não medida pelo presente. Essa ideia está próxima da recusa do anacronismo e aparece junto com Ranke em parte dos livros.
O marxismo
Karl Marx e Friedrich Engels criaram o materialismo histórico, que explica a história a partir da forma como os homens produzem a vida material. O conceito central é o modo de produção, que junta as forças produtivas (técnicas, ferramentas, trabalho) e as relações de produção (quem é dono dos meios de produção e quem trabalha para ele). Na sequência marxista clássica aparecem o modo de produção escravista, o feudal e o capitalista.
Para o marxismo, a luta de classes é o motor da história: senhores e escravos, senhores feudais e servos, burgueses e proletários. A base econômica, chamada infraestrutura, condiciona a superestrutura, que reúne o Estado, o direito, a religião e as ideias de uma época. Por isso o historiador marxista começa pela economia e pela estrutura social para explicar a política e a cultura.
A crítica mais comum ao marxismo é o determinismo econômico, isto é, explicar tudo pela economia. Os próprios marxistas britânicos do século XX responderam a essa crítica. E. P. Thompson tratou a classe social como uma experiência vivida e construída pelas pessoas, e não como uma posição fixa na economia, e defendeu a história vista de baixo, a dos trabalhadores comuns. Eric Hobsbawm e Christopher Hill fazem parte do mesmo grupo.
A Escola dos Annales
Em 1929, Marc Bloch e Lucien Febvre fundaram, em Estrasburgo, na França, a revista dos Annales. O nome da revista deu nome a um movimento que mudou a historiografia do século XX. O alvo da crítica era a escola metódica, que eles chamavam de história événementielle, isto é, a história dos acontecimentos políticos em sequência.
As propostas dos Annales são cobradas em bloco:
- história-problema: o historiador parte de uma pergunta, e não de uma narrativa pronta;
- ampliação das fontes: além do documento escrito oficial, valem objetos, imagens, paisagens, registros paroquiais, tudo o que o homem deixou;
- interdisciplinaridade: diálogo com a geografia, a economia, a sociologia, a psicologia e a antropologia;
- história total: estudar a sociedade inteira, e não só o Estado;
- foco nos grupos e nas estruturas, e não nos grandes homens.
Bloch definiu a história como a ciência dos homens no tempo, e não a ciência do passado. Ele também defendeu que o historiador compreende o passado pelo presente e o presente pelo passado. Febvre deu o primeiro passo para a história das mentalidades, que estuda a forma de sentir e de pensar de uma época.
Os Annales costumam ser divididos em gerações, e a banca troca autores e ideias entre elas:
- Primeira geração (fundação): Marc Bloch e Lucien Febvre, com a história-problema e as primeiras pesquisas sobre mentalidades.
- Segunda geração: Fernand Braudel, com a longa duração, e a história econômica e serial, que trabalha com séries de dados como preços e salários.
- Terceira geração, chamada Nova História: Jacques Le Goff, Pierre Nora, Georges Duby e Emmanuel Le Roy Ladurie, com a história das mentalidades e novos objetos, como o corpo, a morte, o medo, a festa e a infância.
Braudel dividiu o tempo histórico em três durações, cada uma com um ritmo próprio. A longa duração é o tempo quase imóvel das estruturas, como a relação do homem com o clima, o relevo e o mar. A média duração é o tempo das conjunturas, como os ciclos econômicos e as mudanças sociais que levam décadas. A curta duração é o tempo do acontecimento, rápido e político, que para Braudel é a superfície da história.
- Longa duraçãoestruturas geográficas e mentais, quase imóveis
- Média duraçãoconjunturas econômicas e sociais, por décadas
- Curta duraçãoacontecimento político, rápido
Na terceira geração, Le Goff defendeu que todo documento é também um monumento, porque é produzido pela sociedade que quis deixar aquela imagem de si, e por isso o historiador deve criticá-lo. Pierre Nora criou a ideia dos lugares de memória, como museus, monumentos, datas e hinos, que uma sociedade cria quando a memória espontânea se perde. A crítica feita à Nova História é a fragmentação: muitos objetos pequenos e pouca visão de conjunto.
Micro-história e nova história cultural
A micro-história nasceu na Itália, com Carlo Ginzburg e Giovanni Levi. A proposta é reduzir a escala de observação, como quem usa uma lupa, e estudar a fundo um indivíduo, uma aldeia ou um episódio para revelar aspectos da sociedade que a visão geral não mostra. O exemplo clássico é o estudo de Ginzburg sobre Menocchio, um moleiro do século XVI julgado pela Inquisição, que tinha ideias próprias sobre a origem do mundo.
A micro-história não é história local nem curiosidade biográfica. O caso pequeno serve para responder perguntas gerais, como a circulação de ideias entre a cultura letrada e a cultura popular. Ginzburg também propôs o paradigma indiciário, em que o historiador trabalha como um detetive, a partir de pistas e detalhes aparentemente sem importância.
A nova história cultural estuda as representações e as práticas culturais. Roger Chartier trabalhou com os conceitos de representação, a forma como um grupo vê e dá sentido ao mundo, e de apropriação, a forma como as pessoas usam e reinterpretam um texto ou uma ideia. Peter Burke e Robert Darnton são outros nomes da corrente, que estuda a leitura, o livro, os rituais e a cultura popular.
Memória, história oral e tempo presente
A história oral usa entrevistas com pessoas que viveram os fatos como fonte. Ela dá voz a grupos que deixaram poucos documentos escritos, como trabalhadores, migrantes e comunidades tradicionais. O depoimento passa pela mesma crítica de qualquer fonte, porque a memória seleciona, esquece e reconstrói.
Maurice Halbwachs mostrou que a memória é também coletiva, construída nos grupos sociais, como a família, a religião e a classe. A memória e a história não são a mesma coisa: a memória é viva e afetiva e escolhe o que lembrar, e a história é uma operação crítica que examina as fontes. A história do tempo presente estuda o passado recente, em que o historiador convive com testemunhas e com os efeitos ainda abertos dos fatos.
No fim do século XX, a chamada virada linguística aproximou a escrita da história da literatura. Hayden White analisou a narrativa histórica como uma construção de texto, com enredo e escolhas do autor. Michel Foucault estudou como os discursos e as relações de poder produzem saberes e instituições, como a prisão e o hospital.
A historiografia brasileira
O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), criado em 1838 no Rio de Janeiro, tinha a tarefa de escrever uma história nacional para o Império. O naturalista alemão Karl von Martius venceu um concurso do IHGB com a proposta de contar a história do Brasil a partir da mistura de três raças: o branco, o indígena e o negro, com o português como elemento principal.
Francisco Adolfo de Varnhagen, o Visconde de Porto Seguro, escreveu a História Geral do Brasil com base em ampla pesquisa em arquivos. A obra segue o modelo metódico: política, administração, documentos oficiais e valorização do colonizador português e do Estado monárquico. Capistrano de Abreu mudou o foco para o interior: estudou o povoamento do sertão, os caminhos, a pecuária e as bandeiras, e manteve o rigor na crítica documental.
Na década de 1930, três obras criaram as grandes interpretações do Brasil, chamadas de intérpretes do Brasil:
- Gilberto Freyre, em Casa-Grande & Senzala (1933), estudou a família patriarcal do engenho e a miscigenação, com valorização da contribuição africana e indígena;
- Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil (1936), criou o conceito de homem cordial e comparou a colonização portuguesa com a espanhola;
- Caio Prado Júnior, em Formação do Brasil Contemporâneo (1942), fez uma leitura marxista e definiu o sentido da colonização.
Freyre foi criticado por apresentar a escravidão como relação mais branda e próxima entre senhores e escravizados, base do chamado mito da democracia racial. O sociólogo Florestan Fernandes contestou essa imagem e mostrou a exclusão do negro na sociedade de classes depois da abolição.
O homem cordial de Sérgio Buarque é um dos conceitos mais cobrados e mais mal interpretados. Cordial vem do latim cor, coração: é o homem que age pela emoção e pelas relações pessoais, e não pelas regras impessoais. A cordialidade não quer dizer gentileza nem bondade, e ela explica a dificuldade de separar o público do privado no Brasil. Na mesma obra, o autor chama o colonizador português de semeador, que espalha cidades sem plano, e o espanhol de ladrilhador, que planeja cidades em traçado regular.
Para Caio Prado Júnior, o sentido da colonização é o de uma empresa comercial voltada para fora: a colônia existia para fornecer produtos tropicais e metais ao mercado europeu. A grande lavoura, a monocultura e o trabalho escravo decorrem desse sentido. Raymundo Faoro, em Os Donos do Poder, explicou o Brasil pelo estamento burocrático, um grupo que controla o Estado e o usa como coisa própria, que é o patrimonialismo.
Como identificar a corrente
Diante de uma pesquisa ou de um trecho, a corrente se descobre por quatro perguntas, nesta ordem:
- Qual é o objeto? Estado e guerra indicam a escola metódica; economia e classes, o marxismo; estruturas, mentalidades e grupos, os Annales; um indivíduo ou uma aldeia estudados a fundo, a micro-história; representações e leituras, a história cultural.
- Quais são as fontes? Só documento oficial indica a escola metódica; fontes variadas e séries de dados, os Annales; processos judiciais lidos nos detalhes, a micro-história; entrevistas, a história oral.
- Qual é o tempo? Acontecimento em sequência indica a escola metódica; longa duração, Braudel.
- Quem são os protagonistas? Grandes homens indicam a escola metódica; trabalhadores comuns, a história vista de baixo.
Exemplo resolvido: indicar a corrente historiográfica de quatro projetos de pesquisa.
- Projeto A: narrar as negociações do tratado de paz de uma guerra, com base nos ofícios diplomáticos dos arquivos do Estado. Objeto político, fonte oficial e narrativa de acontecimentos: escola metódica.
- Projeto B: estudar, ao longo de três séculos, a relação entre o clima, as colheitas e o preço do trigo numa região. Tempo longo, séries de preços e estrutura geográfica: segunda geração dos Annales, com Braudel e a história serial.
- Projeto C: reconstruir as ideias de um sapateiro do século XVII a partir do processo que ele sofreu, para entender a cultura popular da época. Redução de escala e um indivíduo como caso: micro-história.
- Projeto D: explicar uma revolta de camponeses pela concentração de terras e pelo conflito entre proprietários e trabalhadores. Estrutura econômica e luta de classes: marxismo.
- Resultado: A, metódica; B, Annales (segunda geração); C, micro-história; D, marxismo.
Na prática, uma professora quer contar a história de um bairro operário da sua cidade. Se ela usar só as atas da Câmara e os atos oficiais da prefeitura sobre o bairro, fará um trabalho no modelo metódico, centrado no poder público. Se ela entrevistar antigos moradores, reunir fotos de família e ler os jornais do sindicato, fará uma história vista de baixo, com história oral e ampliação de fontes, na linha de Thompson e dos Annales.
A diferença que a banca mais troca é entre a escola metódica e os Annales, e entre as gerações dos Annales. A tabela resume a primeira oposição.
| Ponto | Escola metódica | Annales |
|---|---|---|
| Ponto de partida | Documento e narrativa | Pergunta, a história-problema |
| Fontes | Documento escrito oficial | Todo vestígio humano |
| Objeto | Política, guerras, Estado | Economia, sociedade, mentalidades |
| Protagonistas | Grandes homens | Grupos e estruturas |
| Tempo | Acontecimento, curta duração | Longa duração e conjunturas |
| Outras ciências | Pouco diálogo | Interdisciplinaridade |
O erro comum é atribuir a longa duração a Marc Bloch ou a Lucien Febvre, quando ela é de Braudel, da segunda geração. Outro erro é ler o homem cordial como homem gentil, quando o conceito trata do predomínio das relações pessoais sobre as regras impessoais.
A Escola dos Annales, fundada por Marc Bloch e Lucien Febvre, defendia a história centrada nos documentos oficiais escritos e nos grandes acontecimentos políticos, como forma de garantir a objetividade do historiador.
Comentário:
Teoria: os Annales criticaram a história dos acontecimentos políticos e ampliaram as fontes para todo vestígio humano, com a história-problema e o diálogo com outras ciências.
A afirmação erra em defendia a história centrada nos documentos oficiais escritos e nos grandes acontecimentos políticos: essa é a proposta da escola metódica, que os Annales combateram. Bloch e Febvre defendiam a ampliação das fontes e o estudo das estruturas e das mentalidades.
Resultado: errado.
Um historiador divide o tempo histórico em camadas com ritmos diferentes. Na camada mais profunda estão a relação do homem com o meio geográfico e as estruturas que mudam muito devagar; acima, os ciclos econômicos e sociais; na superfície, os acontecimentos políticos. Essa concepção é associada a
- A) Leopold von Ranke, que defendia a narrativa do passado a partir dos documentos oficiais.
- B) Marc Bloch, que fundou os Annales e definiu a longa duração como objeto exclusivo do historiador.
- C) Fernand Braudel, da segunda geração dos Annales, com a longa, a média e a curta duração.
- D) Carlo Ginzburg, que reduziu a escala de observação para estudar estruturas geográficas.
- E) E. P. Thompson, que estudou a formação da classe a partir da experiência dos trabalhadores.
Comentário:
A) Errada.
Teoria: Ranke é da escola metódica, centrada no documento oficial e no acontecimento político.
A alternativa erra em Leopold von Ranke: Ranke privilegiava o acontecimento, que para a concepção do enunciado é só a camada da superfície.
B) Errada.
Teoria: Marc Bloch é da primeira geração dos Annales; a longa duração é conceito de Braudel, da segunda geração.
A alternativa erra em definiu a longa duração como objeto exclusivo do historiador: a longa duração não é de Bloch, e Braudel não a tratava como objeto exclusivo, pois combinava três durações.
C) Certa.
Teoria: Braudel dividiu o tempo histórico em longa duração (estruturas), média duração (conjunturas) e curta duração (acontecimento).
As três camadas do enunciado correspondem às três durações de Braudel, da segunda geração dos Annales.
D) Errada.
Teoria: a micro-história de Ginzburg reduz a escala para estudar um indivíduo ou um episódio a fundo.
A alternativa erra em reduziu a escala de observação para estudar estruturas geográficas: a redução de escala de Ginzburg serve para estudar casos como o do moleiro Menocchio, e não estruturas geográficas de longa duração.
E) Errada.
Teoria: Thompson, marxista britânico, tratou a classe como experiência vivida e fez a história vista de baixo.
A alternativa erra em E. P. Thompson: Thompson não propôs a divisão do tempo em três durações.
Resultado: alternativa C.
Na micro-história, a redução da escala de observação a um indivíduo ou a uma pequena comunidade não tem por objetivo produzir história local ou biografia, mas revelar aspectos da sociedade e da cultura que a análise em grande escala não permite ver.
Comentário:
Teoria: a micro-história de Ginzburg e Levi estuda um caso pequeno a fundo para responder perguntas gerais sobre a sociedade.
A afirmação descreve com exatidão a proposta da micro-história. O caso de Menocchio, por exemplo, serve para entender a circulação de ideias entre a cultura letrada e a cultura popular, e não para contar a vida de um moleiro como curiosidade.
Resultado: certo.
Um autor brasileiro afirma que a colônia se organizou como uma empresa comercial voltada para fora, destinada a fornecer gêneros tropicais e metais ao mercado europeu, e que a grande lavoura, a monocultura e o trabalho escravo decorrem desse objetivo. Essa interpretação é de
- A) Gilberto Freyre, que a desenvolveu ao estudar a família patriarcal do engenho.
- B) Sérgio Buarque de Holanda, que a expressou no conceito de homem cordial.
- C) Francisco Adolfo de Varnhagen, que a apresentou com base em uma leitura marxista.
- D) Capistrano de Abreu, que a construiu a partir do povoamento do sertão.
- E) Caio Prado Júnior, que a chamou de sentido da colonização.
Comentário:
A) Errada.
Teoria: Freyre estudou a família patriarcal, a casa-grande e a miscigenação.
A alternativa erra em Gilberto Freyre: o foco de Freyre é a vida social do engenho, e não a colônia como empresa voltada para o mercado externo.
B) Errada.
Teoria: o homem cordial de Sérgio Buarque é o que age pelas relações pessoais e pela emoção, e não pelas regras impessoais.
A alternativa erra em que a expressou no conceito de homem cordial: o homem cordial trata da mistura entre público e privado, e não da função econômica da colônia.
C) Errada.
Teoria: Varnhagen seguiu o modelo metódico, com história política e documental e valorização do colonizador.
A alternativa erra em que a apresentou com base em uma leitura marxista: Varnhagen não era marxista; a leitura marxista é a de Caio Prado Júnior.
D) Errada.
Teoria: Capistrano de Abreu estudou o interior, os caminhos, a pecuária e o povoamento do sertão.
A alternativa erra em Capistrano de Abreu: o estudo do sertão não é a tese da colônia como empresa comercial.
E) Certa.
Teoria: em Formação do Brasil Contemporâneo, Caio Prado Júnior definiu o sentido da colonização como empresa comercial voltada para o mercado europeu.
O enunciado reproduz, com palavras próprias, a tese do sentido da colonização.
Resultado: alternativa E.
Em Raízes do Brasil, Sérgio Buarque de Holanda caracteriza o brasileiro como homem cordial, expressão que designa a gentileza, a hospitalidade e a polidez no trato com estranhos, traços que favoreceriam a separação entre o público e o privado.
Comentário:
Teoria: o homem cordial age pelo coração, isto é, pela emoção e pelas relações pessoais, e por isso tem dificuldade de separar o público do privado.
A afirmação erra em expressão que designa a gentileza, a hospitalidade e a polidez no trato com estranhos: cordial vem de coração e indica o predomínio da emoção e da relação pessoal, que pode ser tanto de amizade quanto de inimizade. Ela erra também em traços que favoreceriam a separação entre o público e o privado: a cordialidade dificulta essa separação.
Resultado: errado.
Uma pesquisadora reúne testamentos, sermões, imagens de igrejas e registros de enterros para entender como as pessoas comuns de uma região do século XVIII encaravam a morte, o medo do inferno e a salvação. A abordagem é típica
- A) da terceira geração dos Annales, a Nova História, com a história das mentalidades.
- B) da escola metódica, com a crítica externa e interna dos documentos oficiais.
- C) do marxismo clássico, com a explicação das crenças pela luta de classes.
- D) da história providencialista, com a ação de Deus como causa dos acontecimentos.
- E) da segunda geração dos Annales, com a história serial dos preços e salários.
Comentário:
A) Certa.
Teoria: a terceira geração dos Annales ampliou a história das mentalidades e os novos objetos, como a morte, o medo e o corpo.
A pesquisa estuda a forma de sentir de pessoas comuns diante da morte, com fontes variadas. É o campo da história das mentalidades da Nova História.
B) Errada.
Teoria: a escola metódica estudava a política e os grandes homens com base no documento oficial.
A alternativa erra em da escola metódica: testamentos, sermões e imagens usados para estudar sentimentos coletivos não são o objeto da escola metódica.
C) Errada.
Teoria: o marxismo clássico explica a superestrutura, inclusive a religião, a partir da base econômica e da luta de classes.
A alternativa erra em com a explicação das crenças pela luta de classes: a pesquisa não parte da economia nem do conflito entre classes, e sim das atitudes diante da morte.
D) Errada.
Teoria: a história providencialista, medieval, explica os fatos pela vontade de Deus.
A alternativa erra em da história providencialista, com a ação de Deus como causa dos acontecimentos: a pesquisadora estuda as crenças das pessoas sobre a salvação, mas não explica a história pela ação divina.
E) Errada.
Teoria: a história serial da segunda geração trabalha com séries de dados quantitativos, como preços e salários.
A alternativa erra em com a história serial dos preços e salários: a pesquisa usa fontes sobre a morte e a fé, e não séries de preços.
Resultado: alternativa A.
Para o materialismo histórico, a infraestrutura econômica, formada pelas forças produtivas e pelas relações de produção, condiciona a superestrutura, que reúne o Estado, o direito, a religião e as ideias de uma época, e a luta de classes é o motor das transformações históricas.
Comentário:
Teoria: Marx e Engels explicam a história pelo modo de produção; a base econômica condiciona a superestrutura, e a luta de classes move a história.
A afirmação reúne corretamente os conceitos centrais do materialismo histórico: modo de produção, infraestrutura, superestrutura e luta de classes.
Resultado: certo.
Um historiador recebe uma carta atribuída a um governador colonial. Primeiro, ele examina o papel, a tinta, a letra e o selo para saber se a carta é mesmo daquela época e daquele autor. Depois, ele avalia se o governador tinha como saber o que relata e se tinha interesse em distorcer os fatos. Essas duas etapas correspondem, respectivamente, à
- A) crítica interna e à crítica externa.
- B) história oral e à história serial.
- C) fonte secundária e à fonte primária.
- D) crítica externa e à crítica interna.
- E) longa duração e à curta duração.
Comentário:
A) Errada.
Regra: a crítica externa trata da autenticidade do documento, e a crítica interna, da confiabilidade do conteúdo.
A alternativa erra em crítica interna e à crítica externa: a ordem está invertida, pois exame de papel, tinta e selo é crítica externa.
B) Errada.
Regra: a história oral usa entrevistas, e a história serial usa séries de dados quantitativos.
A alternativa erra em história oral e à história serial: o caso trata de uma carta escrita e da sua análise crítica, e não de entrevistas nem de séries.
C) Errada.
Regra: fonte primária é a produzida na época estudada, e secundária é a obra que já interpreta o passado.
A alternativa erra em fonte secundária e à fonte primária: as etapas descritas são procedimentos de crítica, e não tipos de fonte; a carta, aliás, é fonte primária.
D) Certa.
Regra: a crítica externa verifica a autenticidade (quem, quando, onde) e a crítica interna verifica a credibilidade do conteúdo.
A primeira etapa examina a autenticidade material da carta, e a segunda avalia a confiança no que ela diz.
E) Errada.
Teoria: longa e curta duração são ritmos do tempo histórico em Braudel.
A alternativa erra em longa duração e à curta duração: o caso não trata de ritmos do tempo, e sim do método de análise do documento.
Resultado: alternativa D.
Como a banca cobra: a banca descreve uma pesquisa ou cita uma ideia e pede a corrente ou o autor, e troca características entre a escola metódica e os Annales, entre as gerações dos Annales e entre os intérpretes do Brasil.
- Historiografia
- Conceitos de base
- Fonte primária e secundária
- Anacronismo
- Fato construído
- Antiguidade ao Iluminismo
- Heródoto e Tucídides
- História providencialista
- Voltaire e o progresso
- Escola metódica
- Ranke, Langlois e Seignobos
- Crítica externa e interna
- Fato político e grandes homens
- Marxismo
- Modo de produção
- Luta de classes
- Thompson e a história vista de baixo
- Annales
- Bloch e Febvre
- Braudel e as três durações
- Nova História e mentalidades
- Micro-história e cultura
- Ginzburg e Menocchio
- Chartier e as representações
- Memória e história oral
- Historiografia brasileira
- IHGB, Martius e Varnhagen
- Capistrano de Abreu
- Freyre, Sérgio Buarque, Caio Prado
- Faoro e o patrimonialismo
- Conceitos de base
Quadros e comparações
A primeira tabela compara as gerações da Escola dos Annales.
| Geração | Autores | Ideia central |
|---|---|---|
| Primeira | Marc Bloch, Lucien Febvre | História-problema, ampliação das fontes, primeiras mentalidades |
| Segunda | Fernand Braudel, Ernest Labrousse | Longa duração, história econômica e serial |
| Terceira (Nova História) | Le Goff, Nora, Duby, Le Roy Ladurie | Mentalidades, novos objetos, documento como monumento |
A segunda tabela põe lado a lado as correntes, os autores e a palavra-chave de cada uma.
| Corrente | Autores | Palavra-chave |
|---|---|---|
| Escola metódica | Ranke, Langlois, Seignobos | Documento oficial, crítica documental |
| Marxismo | Marx, Engels | Modo de produção, luta de classes |
| Marxismo britânico | Thompson, Hobsbawm, Hill | História vista de baixo, experiência |
| Micro-história | Ginzburg, Levi | Redução de escala, paradigma indiciário |
| Nova história cultural | Chartier, Burke, Darnton | Representação, apropriação |
A terceira tabela reúne os intérpretes do Brasil.
| Autor | Obra | Conceito |
|---|---|---|
| Varnhagen | História Geral do Brasil | História metódica, política e documental |
| Capistrano de Abreu | Capítulos de História Colonial | Sertão, caminhos, povoamento do interior |
| Gilberto Freyre | Casa-Grande & Senzala | Família patriarcal, miscigenação |
| Sérgio Buarque de Holanda | Raízes do Brasil | Homem cordial, semeador e ladrilhador |
| Caio Prado Júnior | Formação do Brasil Contemporâneo | Sentido da colonização, leitura marxista |
| Raymundo Faoro | Os Donos do Poder | Estamento burocrático, patrimonialismo |
Para decorar
- Historiografia: estudo crítico de como a história foi escrita em cada época.
- Anacronismo: julgar o passado com valores ou objetos de outro tempo.
- Crítica externa: autenticidade do documento; crítica interna: credibilidade do conteúdo.
- 1838: criação do IHGB.
- 1929: fundação da revista dos Annales por Bloch e Febvre.
- 1933: Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre.
- 1936: Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda.
- 1942: Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio Prado Júnior.
- Três durações de Braudel: longa (estruturas), média (conjunturas), curta (acontecimento).
- Homem cordial: age pelo coração e pelas relações pessoais, não pela gentileza.
- Sentido da colonização: empresa comercial voltada para o mercado europeu.
- Lugares de memória: Pierre Nora.
- Menocchio: o moleiro estudado por Ginzburg.
Pegadinhas
| # | Errado | Certo |
|---|---|---|
| 1 | A longa duração é conceito de Marc Bloch. | A longa duração é de Fernand Braudel, da segunda geração. |
| 2 | Os Annales defendiam o documento oficial como fonte única. | Os Annales ampliaram as fontes para todo vestígio humano. |
| 3 | A escola metódica buscava leis gerais da sociedade, como Comte. | A escola metódica queria estabelecer fatos pela crítica documental. |
| 4 | A crítica interna verifica se o documento é autêntico. | A autenticidade é da crítica externa; a interna avalia a credibilidade. |
| 5 | O homem cordial é o brasileiro gentil e polido. | O homem cordial age pela emoção e pelas relações pessoais. |
| 6 | Gilberto Freyre definiu o sentido da colonização. | O sentido da colonização é de Caio Prado Júnior. |
| 7 | A micro-história é a história local de uma cidade pequena. | Ela reduz a escala para responder perguntas gerais. |
| 8 | Thompson tratava a classe como posição fixa na economia. | Thompson tratava a classe como experiência vivida. |
| 9 | Lugares de memória é conceito de Jacques Le Goff. | O conceito é de Pierre Nora. |
| 10 | Para Sérgio Buarque, o português era o ladrilhador. | O português era o semeador; o espanhol, o ladrilhador. |
Fontes e data
- [1] Conhecimento consolidado de livro didático de História e de teoria da história (correntes historiográficas e historiografia brasileira).
Texto conferido em 15/10/2026.