O que mais cai
| Parte do tópico | Importância | O que a banca cobra |
|---|---|---|
| Introdução: conceito, usuários, interesses e tipos de análise | Alta | Interesse de cada usuário; análise horizontal, vertical e por índices; base de cálculo de cada análise |
| Administração financeira | Alta | Objetivo da empresa; decisões de investimento, financiamento e dividendos; agência; capital de giro e ciclos |
Do que trata o tópico
Este tópico apresenta a análise das demonstrações contábeis: o que ela é, quem a usa, o que cada usuário procura e quais técnicas ela aplica (análise horizontal, vertical e por índices). O tópico também apresenta a administração financeira, a área da empresa que decide onde aplicar os recursos, de onde tirá-los e como cuidar do caixa, e que é a maior usuária interna da análise.
Base de referência
- CPC 00 (R2), Estrutura Conceitual para Relatório Financeiro: o objetivo do relatório financeiro e os usuários primários.
- CPC 26 (R1), Apresentação das Demonstrações Contábeis: o conjunto completo de demonstrações que a análise usa.
Conteúdo
Introdução: conceito, usuários, interesses e tipos de análise
Um gerente de banco recebe o balanço de uma loja de móveis que pede um empréstimo de R$ 300.000,00. O balanço traz dezenas de contas e números soltos, e nenhum deles diz sozinho se a loja vai pagar a dívida. A análise das demonstrações contábeis é a técnica que decompõe, compara e interpreta os números das demonstrações para transformar esses dados em informação útil para uma decisão.
A contabilidade registra os fatos e produz as demonstrações. A análise começa onde a contabilidade termina: ela pega as demonstrações prontas e responde perguntas sobre a empresa.
Dante Carmine Matarazzo, autor muito usado no tema, separa dados de informações. Os dados são os números brutos das demonstrações, como o valor do estoque ou do lucro. As informações são o resultado da análise, como a conclusão de que o estoque gira devagar ou de que o lucro caiu em relação às vendas.
Objetivo da análise. A análise avalia a situação da empresa em dois aspectos. A situação financeira é a capacidade de pagar as dívidas no prazo, e o balanço e a demonstração dos fluxos de caixa são as fontes principais dela. A situação econômica é a capacidade de gerar lucro e dar retorno ao capital investido, e a demonstração do resultado é a fonte principal dela.
Uma empresa pode estar bem num aspecto e mal no outro. Uma empresa lucrativa que vende muito a prazo pode ficar sem caixa para pagar fornecedores, o que é boa situação econômica e má situação financeira.
Material da análise. O CPC 26 lista o conjunto completo de demonstrações contábeis: balanço patrimonial, demonstração do resultado, demonstração do resultado abrangente, demonstração das mutações do patrimônio líquido, demonstração dos fluxos de caixa e notas explicativas. A demonstração do valor adicionado também é exigida de algumas empresas no Brasil. As notas explicativas contam: elas mostram os critérios contábeis, as dívidas por prazo e as garantias dadas, que mudam a leitura dos números.
Usuários da análise. Os usuários se dividem em dois grupos. Os usuários internos trabalham dentro da empresa e têm acesso a dados detalhados, como os administradores, os gerentes e o conselho. Os usuários externos ficam fora da gestão e dependem das demonstrações publicadas e de informações que a empresa decide dar.
A Estrutura Conceitual (CPC 00) chama de usuários primários os investidores, os credores por empréstimo e os outros credores, existentes e potenciais. Esses usuários não podem exigir que a empresa entregue a eles relatórios sob medida, e por isso dependem do relatório financeiro de propósito geral.
Interesses de cada usuário. Cada usuário olha a mesma demonstração com uma pergunta diferente, e a pergunta decide quais índices ele calcula.
- Os acionistas e investidores querem saber se o capital que puseram na empresa rende bem, com que risco e se a empresa vai distribuir dividendos. O foco é a rentabilidade e o valor da ação.
- Os bancos e financiadores querem saber se a empresa paga juros e principal no prazo do empréstimo. O foco é a liquidez, o endividamento, a geração de caixa e as garantias.
- Os fornecedores que vendem a prazo querem saber se recebem em 30, 60 ou 90 dias. O foco é a liquidez de curto prazo.
- Os clientes querem saber se a empresa continua a entregar o produto e a dar garantia. O foco é a continuidade da empresa.
- Os administradores querem medir o desempenho, achar os pontos fracos e decidir. Eles usam todos os índices.
- Os empregados e sindicatos querem saber da estabilidade do emprego e da participação nos lucros.
- O governo quer saber da arrecadação de tributos e, nas atividades reguladas, da saúde financeira da empresa.
- Os concorrentes comparam o próprio desempenho com o da empresa analisada.
Na prática, a Móveis Serra Ltda., empresa fictícia, envia o mesmo balanço a três pessoas. O fornecedor de madeira calcula a liquidez corrente e decide se vende a prazo. O banco calcula o endividamento e a geração de caixa para um empréstimo de 4 anos, e um investidor que pensa em comprar cotas calcula a rentabilidade do patrimônio líquido.
Tipos de análise. A análise usa três técnicas básicas, que se completam.
A análise horizontal mostra a evolução de cada conta ao longo do tempo. Ela escolhe um exercício como base, que vale 100, e calcula o número-índice de cada conta nos exercícios seguintes. O número-índice 125 quer dizer que a conta cresceu 25% em relação à base.
Na fórmula, o ano-base é o exercício escolhido como ponto de partida, e o resultado é o número-índice. Quando a base muda a cada ano (cada ano comparado com o anterior), a análise se chama horizontal anual ou de base móvel; quando a base é sempre o primeiro ano, é de base fixa.
A análise vertical mostra a participação de cada conta no total de um mesmo exercício. No balanço, a base é o total do ativo para as contas do ativo e o total do passivo mais o patrimônio líquido para as contas da direita, e os dois totais são iguais. Na demonstração do resultado, a base é a receita líquida.
Na fórmula, a base é o total do ativo, o total do passivo mais o patrimônio líquido ou a receita líquida, conforme a demonstração. A análise vertical mostra a estrutura da empresa: quanto do ativo está em estoque, quanto da receita vira custo, quanto da receita sobra como lucro.
A análise por índices (ou por quocientes) divide uma conta ou um grupo por outro e gera um indicador. Os índices se agrupam em liquidez (capacidade de pagamento), estrutura de capital ou endividamento (de onde vêm os recursos), rentabilidade (retorno sobre vendas, ativo e patrimônio) e atividade (prazos médios de estocagem, recebimento e pagamento).
Na fórmula, AC é o ativo circulante e PC é o passivo circulante. Uma liquidez corrente de 1,56 quer dizer que a empresa tem R$ 1,56 de bens e direitos de curto prazo para cada R$ 1,00 de dívida de curto prazo.
Como a análise acontece. A análise segue etapas que vão do dado à decisão.
- Coleta: entram as demonstrações e as notas explicativas; sai o material de vários exercícios.
- Padronização: entram as demonstrações publicadas; saem demonstrações reclassificadas num modelo único, para comparar empresas e anos com o mesmo critério.
- Cálculo: entram as demonstrações padronizadas; saem a análise horizontal, a vertical e os índices.
- Comparação: entram os índices; sai a posição da empresa diante dos anos anteriores e dos índices-padrão do setor.
- Interpretação e diagnóstico: entram as comparações; sai o parecer sobre a situação financeira e econômica.
- Decisão: o usuário concede o crédito, compra a ação ou muda a gestão.
Um índice isolado diz pouco. A liquidez corrente de 1,56 pode ser boa num supermercado e fraca numa indústria de ciclo longo, e por isso a comparação com o setor e com o passado da própria empresa é parte da análise. Os índices-padrão são os valores típicos do setor, em geral obtidos pela mediana dos índices de várias empresas do mesmo ramo.
Limites da análise. As demonstrações mostram a empresa numa data passada, e a situação pode mudar depois do encerramento. Empresas com critérios contábeis diferentes (de depreciação ou de estoque, por exemplo) geram números que não se comparam direto. A inflação e a sazonalidade (vendas que se concentram em certos meses) também distorcem a comparação, e o balanço do dia 31 de dezembro pode não representar o resto do ano.
A análise horizontal diz quanto cada conta cresceu; a vertical diz quanto cada conta pesa no total. Uma conta pode crescer muito na horizontal e continuar pequena na vertical, e a conclusão certa só sai das duas juntas.
Exemplo resolvido: a Comercial Lago, empresa fictícia, tem a demonstração do resultado abaixo, em reais. A tabela traz a análise vertical de cada ano entre parênteses e a análise horizontal com o ano 1 como base.
| Conta | Ano 1 (AV) | Ano 2 (AV) | AH ano 2 |
|---|---|---|---|
| Receita líquida | 800.000 (100%) | 1.000.000 (100%) | 125,00 |
| Custo das mercadorias vendidas | 480.000 (60%) | 650.000 (65%) | 135,42 |
| Lucro bruto | 320.000 (40%) | 350.000 (35%) | 109,38 |
| Despesas operacionais | 160.000 (20%) | 200.000 (20%) | 125,00 |
| Lucro líquido | 160.000 (20%) | 150.000 (15%) | 93,75 |
- Análise vertical do custo no ano 2: 650.000 ÷ 1.000.000 × 100 = 65%.
- Análise vertical do lucro bruto no ano 2: 350.000 ÷ 1.000.000 × 100 = 35%.
- Análise horizontal da receita: 1.000.000 ÷ 800.000 × 100 = 125,00, isto é, crescimento de 25%.
- Análise horizontal do custo: 650.000 ÷ 480.000 × 100 = 135,42, isto é, crescimento de 35,42%.
- Análise horizontal do lucro líquido: 150.000 ÷ 160.000 × 100 = 93,75, isto é, queda de 6,25%.
- Diagnóstico: o custo cresceu mais que a receita, a margem bruta caiu de 40% para 35% e o lucro líquido caiu, apesar de a empresa vender 25% a mais.
O erro comum é usar o lucro líquido ou o ativo total como base da análise vertical da demonstração do resultado, quando a base é a receita líquida. Outro erro é tomar o número-índice 125 como crescimento de 125%, quando o crescimento é de 25%.
Na análise vertical do balanço patrimonial, cada conta do ativo é dividida pelo total do ativo, e cada conta do lado direito é dividida pelo total do passivo exigível, sem incluir o patrimônio líquido, para que a participação das dívidas fique isolada.
Comentário:
Regra: na análise vertical do balanço, a base do lado direito é o total do passivo mais o patrimônio líquido, que é igual ao total do ativo.
A afirmação erra em dividida pelo total do passivo exigível, sem incluir o patrimônio líquido: a base é o total do passivo mais o patrimônio líquido. A participação das dívidas no total aparece justamente porque o patrimônio líquido entra na base.
Resultado: errado.
A Indústria Vale, empresa fictícia, pede a um banco um empréstimo para pagar em 4 anos. A empresa também negocia a compra de matéria-prima a prazo de 30 dias com um fornecedor novo. Sobre os usuários da análise e os interesses deles, assinale a alternativa correta.
- A) O banco concentra a análise na rentabilidade do patrimônio líquido, porque o interesse do credor é o retorno dos sócios.
- B) O banco examina a liquidez, o endividamento e a geração de caixa no prazo do empréstimo, porque precisa saber se a empresa paga juros e principal.
- C) O fornecedor que vende a prazo de 30 dias tem o mesmo foco do banco no longo prazo: a rentabilidade dos próximos 4 anos.
- D) O fisco é usuário interno da análise, porque recebe da empresa as declarações de tributos.
- E) O gerente financeiro da Indústria Vale, por ser usuário externo, só tem acesso às demonstrações publicadas.
Comentário:
A) Errada.
Regra: o credor quer saber se recebe o que emprestou; o retorno dos sócios é o foco do investidor.
A alternativa erra em o interesse do credor é o retorno dos sócios: o interesse do credor é a capacidade de pagamento da empresa.
B) Certa.
Regra: o banco que empresta a longo prazo olha a liquidez, o endividamento, a geração de caixa e as garantias durante o prazo do empréstimo.
A alternativa junta os indicadores certos ao motivo certo. O banco quer saber se o caixa dos 4 anos cobre juros e principal.
C) Errada.
Regra: o fornecedor que vende a prazo curto olha a liquidez de curto prazo.
A alternativa erra em a rentabilidade dos próximos 4 anos: o fornecedor quer receber em 30 dias e por isso olha a liquidez de curto prazo.
D) Errada.
Regra: usuário interno é quem está dentro da gestão da empresa; o fisco fica fora dela.
A alternativa erra em é usuário interno da análise: o fisco é usuário externo, mesmo que receba declarações da empresa.
E) Errada.
Regra: o administrador da empresa é usuário interno e tem acesso a dados detalhados da gestão.
A alternativa erra em por ser usuário externo: o gerente financeiro é usuário interno e vê dados que não aparecem nas demonstrações publicadas.
Resultado: alternativa B.
Uma empresa tem receita líquida que cresce 25% de um ano para o outro, e o custo das mercadorias vendidas cresce 35% no mesmo período. Nesse caso, a análise vertical da demonstração do resultado mostra que a participação do custo na receita aumentou, ainda que o lucro bruto em reais tenha subido.
Comentário:
Conta: com receita de 800.000 e custo de 480.000, o custo pesa 60%; com receita de 1.000.000 e custo de 648.000 (35% a mais), o custo pesa 64,8%, e o lucro bruto sobe de 320.000 para 352.000.
O custo cresce mais rápido que a base da análise vertical, e por isso a participação dele na receita sobe. O lucro bruto em reais nem sempre sobe junto: ele sobe só se o aumento da receita (0,25 × receita) for maior que o aumento do custo (0,35 × custo), isto é, se o custo pesar menos de cerca de 71,4% da receita no ano-base (0,25 ÷ 0,35 = 0,714). No exemplo da conta, o custo pesa 60%, e o lucro bruto sobe; com custo de 80% da receita, o lucro bruto cairia.
A afirmação continua certa porque o "ainda que" só admite o caso em que o lucro bruto sobe, e a parte que decide é o aumento da participação do custo na receita, que acontece em qualquer caso.
Resultado: certo.
Como a banca cobra: a banca troca o interesse do credor pelo do investidor, troca a base da análise vertical (receita líquida na demonstração do resultado, total do ativo no balanço) ou lê o número-índice como se fosse a própria variação.
Administração financeira
Uma fábrica de bicicletas tem lucro todo ano, mas atrasa o salário em dezembro porque os clientes só pagam em fevereiro. Outra fábrica tem caixa sobrando, mas deixa o dinheiro parado e não compra máquinas que dariam retorno. A administração financeira é a área da gestão que decide onde a empresa aplica os recursos, de onde os recursos vêm e como o caixa do dia a dia é controlado, para que a empresa crie valor para os donos sem ficar sem dinheiro.
A administração financeira usa a análise das demonstrações como ferramenta. A análise mostra o diagnóstico; a administração financeira toma as decisões com base nele. Por isso o administrador financeiro é o principal usuário interno da análise.
Objetivo da empresa. O objetivo aceito pela teoria de finanças é maximizar a riqueza dos proprietários, que na sociedade anônima aberta se mede pelo preço da ação. Esse objetivo é melhor que maximizar o lucro por três motivos: o lucro contábil não considera quando o dinheiro entra, não considera o risco e é medido pelo regime de competência, e não pelo caixa. Lawrence Gitman, autor muito usado nos concursos, defende essa ideia.
O regime de competência registra a receita quando a venda acontece, e não quando o cliente paga. Assim, uma empresa pode ter lucro e não ter caixa. O administrador financeiro olha o fluxo de caixa, porque é o caixa que paga salários, fornecedores e dívidas.
Exemplo resolvido: dois projetos custam o mesmo e geram o mesmo lucro total de R$ 300,00 em 3 anos. O projeto X paga R$ 300,00 no ano 3. O projeto Y paga R$ 100,00 em cada ano. O dinheiro hoje vale mais que o dinheiro amanhã, porque pode ser aplicado; com taxa de 10% ao ano, o valor presente de cada fluxo é o fluxo dividido por 1,10 elevado ao número de anos.
Na fórmula, VP é o valor presente, F é o fluxo de caixa do ano, i é a taxa de juros por ano e n é o número de anos até o recebimento.
- Projeto X: 300 ÷ 1,10³ = 300 ÷ 1,331 = R$ 225,39.
- Projeto Y, ano 1: 100 ÷ 1,10 = R$ 90,91.
- Projeto Y, ano 2: 100 ÷ 1,21 = R$ 82,64.
- Projeto Y, ano 3: 100 ÷ 1,331 = R$ 75,13.
- Projeto Y, total: 90,91 + 82,64 + 75,13 = R$ 248,68.
- Conclusão: o lucro total é igual, mas o projeto Y cria mais valor, porque entrega o dinheiro antes. Maximizar o lucro não distingue os dois; maximizar a riqueza distingue.
As decisões financeiras. A administração financeira toma três grandes decisões, e cada uma aparece num lado do balanço.
- A decisão de investimento escolhe em que ativos a empresa aplica os recursos: máquinas, estoques, crédito a clientes, novos projetos. Ela aparece no lado do ativo.
- A decisão de financiamento escolhe de onde vêm os recursos: capital próprio (dos sócios) ou capital de terceiros (empréstimos, fornecedores), de curto ou de longo prazo. Ela aparece no lado do passivo e do patrimônio líquido.
- A decisão de dividendos escolhe quanto do lucro vai para os sócios e quanto fica na empresa para reinvestir. A parte que fica é uma fonte de financiamento próprio.
- Decisão de investimento
- caixa
- clientes
- estoques
- máquinas
- Decisão de financiamento
- fornecedores
- empréstimos
- Financiamento próprio e dividendos
- capital social
- reservas de lucros
A decisão de investimento busca ativos que rendam mais que o custo dos recursos usados para comprá-los. O custo de capital é a taxa de retorno mínima que os financiadores (credores e sócios) exigem. Se um projeto rende menos que o custo de capital, ele destrói valor, mesmo que dê lucro contábil.
Risco e retorno. O risco é a chance de o retorno real ficar diferente do retorno esperado, e o retorno é o ganho sobre o valor aplicado, em percentual. Quanto maior o risco de um investimento, maior o retorno que o investidor exige para aceitá-lo. A diferença entre o retorno exigido de um investimento arriscado e o retorno de uma aplicação sem risco é o prêmio pelo risco: a recompensa que o investidor pede para correr a incerteza. O administrador financeiro não busca o maior retorno a qualquer custo, e sim o melhor equilíbrio entre risco e retorno.
Exemplo resolvido: um investidor avalia três opções fictícias. A aplicação sem risco rende 8% ao ano. O investimento A tem retorno esperado de 12% e risco baixo, e o investimento B tem retorno esperado de 12% e risco alto. O investimento C tem retorno esperado de 18% e risco alto.
- Prêmio pelo risco de A: 12% - 8% = 4 pontos percentuais.
- Prêmio pelo risco de B: 12% - 8% = 4 pontos percentuais.
- Prêmio pelo risco de C: 18% - 8% = 10 pontos percentuais.
- A e B têm o mesmo retorno esperado, mas B tem mais risco. O investidor que não gosta de risco escolhe A, porque B não paga nada a mais pela incerteza a mais.
- C tem o mesmo risco de B e paga um prêmio maior. Entre os dois arriscados, C é melhor.
- Conclusão: A ou C pode ser a escolha certa, conforme quanto risco o investidor aceita; B não é escolha racional para quem não gosta de risco, porque A e C são melhores que ele.
O investidor que não gosta de risco, chamado avesso ao risco, só aceita mais risco se receber mais retorno esperado. A teoria de finanças supõe que a maior parte dos investidores e dos administradores é avessa ao risco. Por isso a empresa que aumenta o risco dos fluxos de caixa, sem aumentar o retorno, reduz o valor da ação, mesmo que o lucro fique igual.
Liquidez e rentabilidade. A empresa que mantém muito caixa e muito estoque tem folga para pagar as contas, mas o dinheiro parado rende pouco. A empresa que aplica tudo em ativos de longo prazo rende mais, mas corre o risco de faltar caixa. Esse é o conflito entre liquidez e rentabilidade, e a gestão do capital de giro procura o ponto de equilíbrio.
Tesoureiro e controller. Nas empresas maiores, a área financeira se divide em duas funções. O tesoureiro cuida do caixa, da captação de recursos, das relações com bancos, do crédito e da cobrança. O controller (ou controladoria) cuida da contabilidade, dos custos, do orçamento, dos relatórios gerenciais e dos tributos.
O problema de agência. Na sociedade com muitos acionistas, os donos contratam administradores para gerir a empresa. Michael Jensen e William Meckling descreveram o conflito de agência: o administrador (o agente) pode buscar os próprios interesses, como bônus de curto prazo ou mordomias, e não a riqueza do acionista (o principal). Os custos de agência são os gastos para alinhar os interesses e vigiar o agente, como auditoria, conselho de administração e remuneração atrelada ao valor da ação.
A governança corporativa é o conjunto de práticas que alinha os interesses do administrador aos do acionista e reduz o conflito de agência. Ela usa mecanismos concretos, e cada um ataca uma parte do problema:
- O conselho de administração representa os acionistas, escolhe e fiscaliza a diretoria e pode substituí-la.
- A auditoria independente examina as demonstrações contábeis e dá opinião sobre elas, e por isso reduz a chance de o administrador esconder resultado ruim.
- A remuneração por desempenho liga o bônus do administrador ao valor da ação ou a metas de longo prazo, e assim o ganho dele cresce junto com a riqueza do acionista.
- A transparência obriga a empresa a divulgar informação clara e no prazo aos acionistas e ao mercado.
Esses mecanismos têm custo, e esse custo é parte dos custos de agência. A governança não elimina o conflito; ela reduz o conflito a um custo menor que a perda que o conflito causaria.
Capital de giro. O capital de giro é o conjunto de recursos de curto prazo que a empresa usa nas operações do dia a dia: caixa, contas a receber e estoques. O capital circulante líquido (CCL) é a diferença entre o ativo circulante e o passivo circulante.
Na fórmula, AC é o ativo circulante e PC é o passivo circulante. O CCL positivo quer dizer que parte do ativo de curto prazo é financiada por recursos de longo prazo; o CCL negativo quer dizer que a empresa usa dívida de curto prazo para financiar ativo de longo prazo, o que pede atenção.
Os ciclos. O caminho do dinheiro na empresa comercial tem três prazos médios: o prazo médio de estocagem (PME), o prazo médio de recebimento das vendas (PMR) e o prazo médio de pagamento aos fornecedores (PMP). Com eles se medem três ciclos.
- O ciclo econômico vai da compra da mercadoria até a venda e é igual ao PME.
- O ciclo operacional vai da compra da mercadoria até o recebimento da venda e é igual ao PME mais o PMR.
- O ciclo financeiro (ou ciclo de caixa) vai do pagamento ao fornecedor até o recebimento do cliente e é igual ao ciclo operacional menos o PMP.
Na fórmula, CO é o ciclo operacional e CF é o ciclo financeiro. Quanto maior o ciclo financeiro, mais tempo a empresa precisa bancar as operações com recursos próprios ou empréstimos, e por isso a administração financeira tenta reduzir o PME e o PMR e aumentar o PMP.
- dia 0compra a mercadoria a prazo
- dia 40paga o fornecedor
- dia 45vende a mercadoria a prazo
- dia 75recebe do cliente
Exemplo resolvido: a Distribuidora Rio, empresa fictícia, guarda a mercadoria por 45 dias em média, recebe dos clientes em 30 dias e paga os fornecedores em 40 dias. O ativo circulante é de R$ 500.000,00 e o passivo circulante é de R$ 320.000,00.
- Ciclo econômico: PME = 45 dias.
- Ciclo operacional: 45 + 30 = 75 dias.
- Ciclo financeiro: 75 - 40 = 35 dias.
- CCL: 500.000 - 320.000 = R$ 180.000,00.
- Liquidez corrente: 500.000 ÷ 320.000 = 1,5625, cerca de 1,56.
- Conclusão: a empresa paga o fornecedor 35 dias antes de receber do cliente e precisa de recursos para cobrir esse intervalo, e o CCL positivo indica que ela tem folga de curto prazo para isso.
Na prática, a gerente financeira da Distribuidora Rio negocia com o fornecedor o pagamento em 55 dias. O ciclo operacional continua de 75 dias, porque não depende do fornecedor, mas o ciclo financeiro cai para 20 dias, e a empresa precisa de menos empréstimo para girar.
O ciclo operacional não depende do prazo do fornecedor; o ciclo financeiro depende. O ciclo econômico só vê o estoque e não vê o recebimento.
O erro comum é somar o PMP ao ciclo operacional para achar o ciclo financeiro, quando o PMP é subtraído. Outro erro é achar que maximizar o lucro é o objetivo da empresa, quando o objetivo aceito é maximizar a riqueza dos donos.
Sobre os objetivos e as funções da administração financeira, assinale a alternativa correta.
- A) O objetivo da empresa é maximizar o lucro contábil de cada exercício, porque o lucro pelo regime de competência mede o caixa gerado para os sócios.
- B) A decisão de financiamento trata da escolha dos ativos em que a empresa aplica os recursos, como máquinas e estoques.
- C) O conflito de agência clássico ocorre entre credores e fornecedores, que disputam o caixa da empresa em caso de falência.
- D) Maximizar a riqueza dos proprietários é preferível a maximizar o lucro, porque considera o momento dos fluxos de caixa e o risco.
- E) O controller cuida da captação de recursos e da gestão do caixa, e o tesoureiro cuida da contabilidade e do orçamento.
Comentário:
A) Errada.
Regra: o objetivo aceito é maximizar a riqueza dos proprietários; o lucro contábil ignora o tempo, o risco e o caixa.
A alternativa erra em maximizar o lucro contábil de cada exercício: o lucro pelo regime de competência não é o caixa, e por isso não é o objetivo da empresa.
B) Errada.
Regra: a decisão de investimento escolhe os ativos; a decisão de financiamento escolhe as fontes de recursos.
A alternativa erra em escolha dos ativos em que a empresa aplica os recursos: a decisão de financiamento escolhe entre capital próprio e de terceiros.
C) Errada.
Teoria: para Jensen e Meckling, o conflito de agência surge entre o principal (o acionista) e o agente (o administrador contratado).
A alternativa erra em entre credores e fornecedores: o conflito clássico é entre acionistas e administradores.
D) Certa.
Regra: a riqueza dos proprietários, medida pelo valor da ação, leva em conta quando o dinheiro entra e o risco do fluxo.
O lucro total igual pode esconder fluxos de caixa em datas diferentes e com riscos diferentes. A riqueza dos donos capta essas diferenças.
E) Errada.
Regra: o tesoureiro cuida do caixa, da captação e dos bancos; o controller cuida da contabilidade, dos custos e do orçamento.
A alternativa erra em O controller cuida da captação de recursos e da gestão do caixa: essas tarefas são do tesoureiro, e as funções estão invertidas.
Resultado: alternativa D.
Uma empresa tem prazo médio de estocagem de 45 dias, prazo médio de recebimento de 30 dias e prazo médio de pagamento a fornecedores de 40 dias. Nessas condições, o ciclo operacional é de 75 dias e o ciclo financeiro é de 115 dias.
Comentário:
Conta: ciclo operacional = 45 + 30 = 75 dias; ciclo financeiro = 75 - 40 = 35 dias.
A afirmação acerta o ciclo operacional, mas erra em o ciclo financeiro é de 115 dias: o prazo do fornecedor é subtraído do ciclo operacional, e o ciclo financeiro é de 35 dias.
Resultado: errado.
A Ótica Norte, empresa fictícia, tem ativo circulante de R$ 600.000,00, dos quais R$ 150.000,00 em estoques, e passivo circulante de R$ 400.000,00. Sobre o capital de giro da empresa, assinale a alternativa correta.
- A) O capital circulante líquido é de R$ 200.000,00, e a troca de um empréstimo de curto prazo por outro de longo prazo aumenta esse valor.
- B) O capital circulante líquido é de R$ 1.000.000,00, porque soma o ativo circulante ao passivo circulante.
- C) O capital circulante líquido é de R$ 50.000,00, porque os estoques são excluídos do cálculo.
- D) A compra de estoque à vista aumenta o capital circulante líquido, porque o estoque entra no ativo circulante.
- E) Manter mais caixa parado aumenta a rentabilidade e a liquidez ao mesmo tempo, sem custo para a empresa.
Comentário:
A) Certa.
Conta: 600.000 - 400.000 = R$ 200.000,00; se o passivo circulante cai e o ativo circulante não muda, o CCL sobe.
Quando a empresa troca dívida de curto prazo por dívida de longo prazo, o passivo circulante diminui. O ativo circulante fica igual, e o capital circulante líquido aumenta.
B) Errada.
Regra: o capital circulante líquido é a diferença entre o ativo circulante e o passivo circulante, e não a soma.
A alternativa erra em R$ 1.000.000,00, porque soma o ativo circulante ao passivo circulante: o cálculo é a subtração, que dá R$ 200.000,00.
C) Errada.
Regra: os estoques fazem parte do ativo circulante e entram no capital circulante líquido; quem exclui os estoques é a liquidez seca.
A alternativa erra em porque os estoques são excluídos do cálculo: o CCL usa o ativo circulante inteiro. Mesmo sem estoques, a conta daria 450.000 - 400.000 = R$ 50.000,00, mas esse cálculo não é o CCL.
D) Errada.
Regra: a compra à vista troca caixa por estoque, e as duas contas estão no ativo circulante.
A alternativa erra em aumenta o capital circulante líquido: o ativo circulante não muda no total, e o CCL fica igual.
E) Errada.
Regra: liquidez e rentabilidade entram em conflito; o caixa parado dá folga para pagar, mas rende pouco.
A alternativa erra em aumenta a rentabilidade e a liquidez ao mesmo tempo, sem custo para a empresa: o caixa parado aumenta a liquidez e reduz a rentabilidade.
Resultado: alternativa A.
Um projeto que gera lucro contábil positivo em todos os anos pode reduzir a riqueza dos acionistas, se o retorno dele for menor que o custo de capital da empresa.
Comentário:
Regra: o custo de capital é o retorno mínimo exigido pelos financiadores; o projeto que rende menos que ele destrói valor, mesmo com lucro contábil.
O lucro contábil não desconta o retorno que credores e sócios exigem pelo dinheiro aplicado. Se o projeto rende menos que esse retorno mínimo, os sócios ganhariam mais aplicando o dinheiro em outra opção de mesmo risco.
Resultado: certo.
Na governança corporativa, a remuneração do administrador por desempenho, ligada ao valor da ação, aumenta o conflito de agência, porque estimula o administrador a buscar o próprio ganho; por isso o mecanismo indicado para alinhar interesses é a remuneração fixa, sem relação com o resultado.
Comentário:
Regra: a remuneração por desempenho liga o ganho do administrador ao valor da ação e, assim, alinha o interesse do agente ao do acionista.
A afirmação erra em aumenta o conflito de agência: a remuneração por desempenho reduz o conflito, porque o administrador ganha mais quando o acionista ganha mais. Erra também em o mecanismo indicado para alinhar interesses é a remuneração fixa: a remuneração fixa não dá ao administrador motivo para buscar a riqueza do acionista.
Resultado: errado.
Como a banca cobra: a banca troca lucro por riqueza no objetivo da empresa, inverte as decisões de investimento e de financiamento, troca as tarefas do tesoureiro e do controller ou pede o cálculo do ciclo financeiro com o prazo do fornecedor somado.
- Introdução à análise e administração financeira
- Análise das demonstrações
- Situação financeira
- Situação econômica
- Usuários internos
- Usuários externos
- Interesse do credor: pagamento
- Interesse do investidor: rentabilidade
- Interesse do fornecedor: liquidez curta
- Análise horizontal
- Análise vertical
- Análise por índices
- Administração financeira
- Maximizar a riqueza dos donos
- Decisão de investimento
- Decisão de financiamento
- Decisão de dividendos
- Risco e retorno
- Liquidez e rentabilidade
- Tesoureiro e controller
- Conflito de agência
- Governança corporativa
- Capital circulante líquido
- Ciclo econômico
- Ciclo operacional
- Ciclo financeiro
- Análise das demonstrações
Quadros e comparações
A tabela abaixo compara o interesse de cada usuário e o grupo de índices que ele mais usa.
| Usuário | Tipo | O que procura | Índices que mais usa |
|---|---|---|---|
| Acionista e investidor | Externo | Retorno do capital e risco | Rentabilidade |
| Banco e financiador | Externo | Pagamento de juros e principal | Liquidez, endividamento e geração de caixa |
| Fornecedor | Externo | Receber a venda a prazo | Liquidez de curto prazo |
| Cliente | Externo | Continuidade do fornecimento | Liquidez e endividamento |
| Administrador | Interno | Desempenho e decisão | Todos |
| Governo | Externo | Arrecadação e regulação | Resultado e receita |
A tabela abaixo compara as três técnicas de análise.
| Técnica | O que mostra | Base do cálculo | Pergunta que responde |
|---|---|---|---|
| Análise horizontal | Evolução no tempo | Ano-base igual a 100 | Quanto a conta cresceu ou caiu? |
| Análise vertical | Estrutura num mesmo ano | Total do ativo ou receita líquida | Quanto a conta pesa no total? |
| Análise por índices | Relação entre contas | Uma conta sobre outra | Como está a liquidez, o endividamento ou a rentabilidade? |
A tabela abaixo compara os três ciclos.
| Ciclo | Vai de | Até | Cálculo |
|---|---|---|---|
| Econômico | Compra da mercadoria | Venda | PME |
| Operacional | Compra da mercadoria | Recebimento do cliente | PME + PMR |
| Financeiro | Pagamento ao fornecedor | Recebimento do cliente | PME + PMR - PMP |
Para decorar
- Análise horizontal: ; índice 125 é crescimento de 25%.
- Análise vertical: ; base é o total do ativo no balanço e a receita líquida na demonstração do resultado.
- Liquidez corrente: .
- Capital circulante líquido: .
- Ciclo operacional: PME + PMR.
- Ciclo financeiro: ciclo operacional - PMP.
- Valor presente: .
- Situação financeira: capacidade de pagar; situação econômica: capacidade de gerar lucro.
- Usuários primários (CPC 00): investidores, credores por empréstimo e outros credores.
- Objetivo da empresa: maximizar a riqueza dos proprietários, e não o lucro.
Pegadinhas
| # | Errado | Certo |
|---|---|---|
| 1 | O credor busca principalmente a rentabilidade do patrimônio líquido. | O credor busca a capacidade de pagamento. A rentabilidade é o foco do investidor. |
| 2 | O fornecedor que vende a prazo curto olha a rentabilidade de longo prazo. | O fornecedor olha a liquidez de curto prazo. |
| 3 | Na análise vertical da demonstração do resultado, a base é o lucro líquido. | A base é a receita líquida. |
| 4 | O número-índice 125 na análise horizontal é crescimento de 125%. | O índice 125 é crescimento de 25% sobre a base. |
| 5 | A análise vertical mostra a evolução das contas ao longo dos anos. | A evolução no tempo é da análise horizontal. A vertical mostra a estrutura num ano. |
| 6 | O objetivo da empresa é maximizar o lucro. | O objetivo é maximizar a riqueza dos proprietários. |
| 7 | A decisão de financiamento escolhe os ativos da empresa. | Ela escolhe as fontes de recursos. Os ativos são da decisão de investimento. |
| 8 | O tesoureiro cuida da contabilidade e do orçamento. | Isso é do controller. O tesoureiro cuida do caixa e da captação. |
| 9 | O conflito de agência clássico é entre credores e fornecedores. | É entre acionistas (principal) e administradores (agente). |
| 10 | O ciclo financeiro é o ciclo operacional mais o PMP. | O ciclo financeiro é o ciclo operacional menos o PMP. |
| 11 | A compra de estoque à vista aumenta o capital circulante líquido. | O CCL não muda, porque caixa e estoque estão no ativo circulante. |
Fontes e data
- [1] CPC 00 (R2), Estrutura Conceitual para Relatório Financeiro (objetivo do relatório financeiro e usuários primários).
- [2] CPC 26 (R1), Apresentação das Demonstrações Contábeis (conjunto completo das demonstrações).
- [3] Conhecimento consolidado de livro didático de análise das demonstrações contábeis e de administração financeira (análise horizontal, vertical e por índices; objetivo da empresa; decisões financeiras; teoria da agência; capital de giro e ciclos).
Texto conferido em 14/10/2026.