O que mais cai
| Parte do tópico | Importância | O que a banca cobra |
|---|---|---|
| Conceitos de sociologia | Alta | Objeto da sociologia, senso comum, grupos, status e papel |
| Primeiros teóricos da sociologia | Alta | Comte, Durkheim, Weber e Marx trocados entre si |
| Fato social | Alta | As três características e a diferença para a ação social |
| Socialização | Alta | Socialização primária e secundária, agentes e ressocialização |
| Controle social | Alta | Controle formal e informal, sanções e desvio |
| Conceito de instituições sociais | Média | Diferença entre instituição, grupo e organização |
| O Estado e o controle social | Média | Monopólio da força legítima e visões de Marx e Foucault |
| Movimentos sociais | Média | Movimentos clássicos e novos movimentos sociais |
| Redes sociais | Baixa | Laços fortes e fracos e capital social |
Do que trata o tópico
Este tópico apresenta a sociologia, que é a ciência que estuda as relações entre as pessoas e os grupos, e os conceitos que o aluno usa em todo o resto da matéria. O tópico mostra os autores que fundaram a disciplina, o fato social de Durkheim, a socialização, o controle social e as instituições. No fim, o tópico trata do Estado como agente de controle, dos movimentos sociais e das redes sociais no sentido sociológico.
Conteúdo
Conceitos de sociologia
Uma pessoa acorda, pega um ônibus lotado, chega ao trabalho no horário e cumprimenta o chefe de forma diferente da forma como cumprimenta um amigo. Nada disso está escrito num manual, mas quase todos fazem o mesmo. A sociologia é a ciência que estuda esses padrões: as relações sociais, os grupos, as instituições e as regras que organizam a vida em sociedade.
A sociologia nasce na Europa do século XIX, depois da Revolução Industrial e da Revolução Francesa. As duas revoluções mudaram o trabalho, a cidade, a família e o poder político em poucas décadas, e os pensadores da época quiseram explicar essa mudança com um método científico, e não com a religião ou a filosofia especulativa. Por isso a sociologia é uma ciência da sociedade moderna: ela surge para entender a passagem da vida rural e tradicional para a vida urbana e industrial.
O ponto de partida da disciplina é a diferença entre o senso comum e o conhecimento sociológico. O senso comum é o saber do dia a dia, aprendido pela experiência e pela tradição, sem teste nem método. O conhecimento sociológico usa conceitos, observação sistemática e comparação, e por isso pode corrigir o senso comum. O sociólogo Charles Wright Mills chamou de imaginação sociológica a capacidade de ligar a vida de uma pessoa aos processos da sociedade, como ver o desemprego de um vizinho como parte de uma crise econômica, e não só como falha pessoal.
A sociologia trabalha com alguns conceitos básicos. A interação social é a ação recíproca entre pessoas, em que o comportamento de uma influencia o da outra. A relação social é a interação que se repete e ganha um padrão, como a relação entre professor e aluno. O grupo social é um conjunto de pessoas que interagem com frequência, têm objetivos ou valores comuns e se reconhecem como parte do grupo.
Os grupos se dividem em primários e secundários, uma classificação ligada ao sociólogo Charles Cooley. O grupo primário é pequeno, tem contato direto, íntimo e afetivo, como a família e o grupo de amigos. O grupo secundário é maior, tem contato mais formal e impessoal e existe para um fim definido, como uma empresa, um sindicato ou um órgão público. Uma multidão num estádio não é grupo social, porque as pessoas estão juntas por acaso e não mantêm interação duradoura: a sociologia chama esse ajuntamento de agregado social.
O sociólogo Ferdinand Tönnies separou comunidade e sociedade. Na comunidade, os laços são afetivos, baseados no parentesco, na vizinhança e na tradição, como numa pequena vila rural. Na sociedade, os laços são racionais, baseados no interesse e no contrato, como nas relações de compra e venda da cidade grande.
Cada pessoa ocupa posições nos grupos. O status é a posição que a pessoa ocupa numa estrutura social, como mãe, servidor público ou estudante. O papel social é o comportamento esperado de quem ocupa o status. O status pode ser atribuído, quando a pessoa o recebe sem escolher (sexo, idade, origem familiar), ou adquirido, quando depende de esforço ou escolha (profissão, diploma, cargo).
Outros conceitos completam a base. A cultura é o conjunto de conhecimentos, crenças, valores, costumes e técnicas que um grupo cria e transmite. Os valores são as ideias do que é bom e desejável, e as normas são as regras de conduta que põem os valores em prática. A estrutura social é a rede relativamente estável de status, papéis, grupos e instituições de uma sociedade.
Exemplo resolvido: classifique as situações de uma servidora chamada Lúcia, que trabalha num órgão estadual.
- Lúcia é filha e mãe. Os dois são status. "Filha" é atribuído, porque ela não escolheu; "mãe", no sentido sociológico, é adquirido quando resulta de uma escolha de vida.
- Lúcia é analista do órgão por concurso. O status é adquirido, porque depende de esforço próprio.
- Na família, Lúcia está num grupo primário. No órgão, está num grupo secundário.
- Na fila do banco, Lúcia está num agregado, e não num grupo, porque não há interação duradoura.
- O que se espera dela como analista (cumprir horário, atender o público) é o papel social ligado ao status de analista.
Na prática, o conceito de papel social explica o conflito de papéis: quando Lúcia precisa ficar até mais tarde no órgão no mesmo dia da reunião escolar do filho, os papéis de analista e de mãe pedem condutas que não cabem juntas. O conflito não vem de um defeito da pessoa, mas de duas expectativas sociais ao mesmo tempo.
A banca costuma confundir status e papel. O status é a posição; o papel é o comportamento esperado de quem ocupa a posição. Outra troca comum é chamar qualquer ajuntamento de grupo, quando o grupo exige interação e identidade comum.
O erro comum de quem começa é pensar que a sociologia estuda o indivíduo isolado. Ela estuda as relações e os padrões coletivos, e o indivíduo entra como parte desses padrões.
A diferença entre grupo primário e grupo secundário não está no número de membros, e sim no tipo de contato: um grupo de cinco colegas que só se comunica por ordens formais e para um fim definido tem traços de grupo secundário.
Comentário:
Regra: o grupo primário tem contato direto, íntimo e afetivo; o grupo secundário tem contato formal e impessoal, voltado a um fim definido.
O tamanho costuma acompanhar o tipo de grupo, mas o critério que decide é a natureza do contato. Um grupo pequeno com relações formais e voltadas a uma tarefa se aproxima do grupo secundário.
Resultado: certo.
Um estudante afirma que "toda reunião de pessoas no mesmo lugar forma um grupo social". Sobre os conceitos básicos da sociologia, assinale a alternativa correta.
- A) O status é o comportamento que a sociedade espera de quem ocupa uma posição.
- B) O agregado social reúne pessoas no mesmo espaço sem interação duradoura nem identidade comum, e por isso não é grupo social.
- C) Para Tönnies, a sociedade é marcada por laços afetivos de parentesco e vizinhança.
- D) O status de profissão é atribuído, porque a pessoa o recebe ao nascer.
- E) A imaginação sociológica é a capacidade de explicar a vida social só pelas escolhas individuais.
Comentário:
A) Errada.
Regra: o status é a posição; o papel social é o comportamento esperado de quem ocupa a posição.
A alternativa erra em O status é o comportamento que a sociedade espera: esse é o conceito de papel social.
B) Certa.
Regra: o grupo social exige interação frequente e identidade comum; o ajuntamento sem esses traços é um agregado.
A alternativa descreve o agregado social e corrige a frase do estudante.
C) Errada.
Teoria: para Tönnies, a comunidade tem laços afetivos e tradicionais, e a sociedade tem laços racionais e contratuais.
A alternativa erra em a sociedade é marcada por laços afetivos de parentesco e vizinhança: esses laços são da comunidade.
D) Errada.
Regra: o status adquirido depende de esforço ou escolha, como a profissão; o atribuído vem sem escolha, como a idade.
A alternativa erra em é atribuído, porque a pessoa o recebe ao nascer: a profissão é status adquirido.
E) Errada.
Teoria: para Wright Mills, a imaginação sociológica liga a vida pessoal aos processos coletivos.
A alternativa erra em só pelas escolhas individuais: a imaginação sociológica faz o caminho contrário e relaciona a pessoa à sociedade.
Resultado: alternativa B.
Como a banca cobra: a banca troca status por papel, grupo por agregado e comunidade por sociedade. Também pede a origem da sociologia ligada às revoluções Industrial e Francesa.
Primeiros teóricos da sociologia
A sociologia tem quatro autores clássicos que a banca cobra sempre: Auguste Comte, Émile Durkheim, Max Weber e Karl Marx. Cada um responde de um jeito diferente a uma pergunta comum: o que mantém a sociedade unida e o que faz a sociedade mudar. Quem decora a palavra-chave de cada autor resolve a maior parte das questões.
Auguste Comte é o fundador do positivismo e quem deu nome à sociologia, que ele também chamou de física social. Para Comte, a sociedade deve ser estudada com o mesmo método das ciências naturais: observação, comparação e busca de leis. Ele propôs a lei dos três estados, segundo a qual o pensamento humano passa por três fases: o estado teológico, que explica o mundo por forças sobrenaturais; o estado metafísico, que explica por ideias abstratas; e o estado positivo, que explica pela ciência e pela observação. Comte dividiu a sociologia em estática social, que estuda a ordem, e dinâmica social, que estuda o progresso, e o lema "ordem e progresso" da bandeira brasileira vem dessa corrente.
O inglês Herbert Spencer levou à sociologia a ideia de evolução. Ele comparava a sociedade a um organismo vivo, em que cada parte tem uma função, e via a história como passagem de sociedades simples para sociedades complexas. Essa visão é chamada de organicismo e influenciou o funcionalismo.
Émile Durkheim deu à sociologia um objeto e um método próprios. O objeto é o fato social, que a próxima parte explica em detalhe, e a regra de método é tratar os fatos sociais como coisas, isto é, observá-los de fora, sem pré-noções. Durkheim estudou a coesão social pela solidariedade: a solidariedade mecânica une pessoas parecidas entre si, com forte consciência coletiva, nas sociedades simples; a solidariedade orgânica une pessoas diferentes que dependem umas das outras pela divisão do trabalho, nas sociedades modernas.
Durkheim também criou o conceito de anomia, que é a falta ou o enfraquecimento das normas sociais, quando as regras deixam de orientar a conduta. No estudo sobre o suicídio, ele mostrou que até um ato que parece só individual tem taxas que variam com a integração social e com a regulação dos grupos. A consciência coletiva é o conjunto de crenças e sentimentos comuns aos membros de uma sociedade, que existe além de cada pessoa.
Max Weber criou a sociologia compreensiva. Para ele, a sociologia deve compreender o sentido que as pessoas dão às próprias ações, e não só observar comportamentos de fora. O objeto de Weber é a ação social, que é a ação orientada pelo comportamento de outras pessoas e dotada de sentido para quem age.
Weber classificou a ação social em quatro tipos:
- Ação racional com relação a fins: a pessoa escolhe os meios mais eficazes para um objetivo calculado, como estudar o edital para passar no concurso.
- Ação racional com relação a valores: a pessoa age por convicção, sem pesar as consequências, como alguém que devolve uma carteira achada por honestidade.
- Ação afetiva: a pessoa age por emoção, como bater a porta com raiva.
- Ação tradicional: a pessoa age por hábito enraizado, como seguir um ritual de família sem pensar no motivo.
Weber usou o tipo ideal como ferramenta: um modelo puro, montado pelo pesquisador, que não existe igual na realidade, mas serve para comparar casos reais. Ele também descreveu três tipos de dominação legítima: a legal-racional, baseada em regras impessoais, como a burocracia; a tradicional, baseada no costume, como o poder do patriarca; e a carismática, baseada nas qualidades extraordinárias de um líder. No estudo sobre a ética protestante, Weber ligou valores religiosos ao desenvolvimento do capitalismo, e chamou de desencantamento do mundo o recuo das explicações mágicas diante da racionalização.
Karl Marx explicou a sociedade pela economia e pelo conflito. No materialismo histórico, a base da sociedade é o modo como ela produz a vida material. A infraestrutura, que reúne as forças produtivas e as relações de produção, condiciona a superestrutura, que reúne o Estado, o direito, a religião e as ideias. Para Marx, a história de toda sociedade é a história da luta de classes, e no capitalismo as duas classes centrais são a burguesia, dona dos meios de produção, e o proletariado, que vende a força de trabalho.
Marx chamou de mais-valia o valor que o trabalhador produz além do que recebe como salário e que fica com o capitalista. A alienação é a situação em que o trabalhador não se reconhece no que produz nem controla o próprio trabalho. A ideologia é o conjunto de ideias que apresenta os interesses da classe dominante como se fossem de todos.
A linha abaixo mostra a ordem de nascimento dos quatro autores clássicos.
- 1798Auguste Comte
- 1818Karl Marx
- 1858Émile Durkheim
- 1864Max Weber
Exemplo resolvido: diga qual autor explicaria cada situação de um servidor que se aposenta numa cidade industrial.
- O servidor obedece ao chefe porque o cargo dele está previsto em regras impessoais. A explicação é a dominação legal-racional de Weber.
- Os operários da fábrica da cidade se organizam contra os donos por melhores salários. A explicação é a luta de classes de Marx.
- Depois de uma crise, as regras de convivência da cidade perdem força e ninguém sabe que conduta seguir. A explicação é a anomia de Durkheim.
- Um professor afirma que a cidade saiu das explicações religiosas para as científicas. A explicação é a lei dos três estados de Comte.
Na prática, um órgão público com concurso, hierarquia escrita e cargos definidos por regra é o exemplo mais citado de dominação legal-racional. Se o órgão segue um líder porque ele "tem um dom" e as regras ficam em segundo plano, a dominação passa a ser carismática.
A diferença entre os autores aparece no método. Durkheim olha a sociedade de fora, como coisa, e parte do todo para o indivíduo. Weber parte do sentido que o indivíduo dá à ação e chega aos padrões coletivos. Marx parte da produção material e do conflito entre classes.
O erro comum é atribuir a Weber o conceito de anomia ou a Durkheim os tipos de ação social. Anomia, solidariedade e fato social são de Durkheim; ação social, tipo ideal e dominação são de Weber.
Na classificação de Max Weber, quem age por convicção moral, sem considerar as consequências, pratica ação racional com relação a fins, porque escolhe com cuidado os meios do próprio comportamento.
Comentário:
Teoria: para Weber, a ação racional com relação a valores segue uma convicção, sem pesar as consequências; a ação racional com relação a fins calcula meios e consequências para atingir um objetivo.
A afirmação erra em pratica ação racional com relação a fins: agir por convicção, sem pesar consequências, é ação racional com relação a valores.
Resultado: errado.
Sobre os autores clássicos da sociologia, assinale a alternativa correta.
- A) Para Comte, o estado metafísico é a fase final do pensamento humano, baseada na ciência.
- B) Para Durkheim, a solidariedade orgânica é típica das sociedades simples, em que as pessoas são parecidas entre si.
- C) Para Marx, a superestrutura determina a infraestrutura, porque as ideias movem a história.
- D) Para Weber, o tipo ideal é um modelo puro que o pesquisador monta para comparar casos reais, e não a descrição de um caso que existe.
- E) Para Weber, a dominação carismática se apoia em regras impessoais e em cargos definidos.
Comentário:
A) Errada.
Teoria: na lei dos três estados de Comte, a ordem é teológico, metafísico e positivo, e o positivo é o estado da ciência.
A alternativa erra em o estado metafísico é a fase final: a fase final é o estado positivo.
B) Errada.
Teoria: para Durkheim, a solidariedade mecânica une pessoas parecidas nas sociedades simples, e a orgânica une pessoas diferentes pela divisão do trabalho.
A alternativa erra em a solidariedade orgânica é típica das sociedades simples: nas sociedades simples, a solidariedade é mecânica.
C) Errada.
Teoria: no materialismo histórico de Marx, a infraestrutura econômica condiciona a superestrutura.
A alternativa erra em a superestrutura determina a infraestrutura: a relação é a inversa.
D) Certa.
Teoria: para Weber, o tipo ideal é uma construção do pesquisador que acentua traços da realidade e serve de régua para comparar casos.
A alternativa descreve o tipo ideal como Weber o usa.
E) Errada.
Teoria: para Weber, a dominação legal-racional se apoia em regras impessoais; a carismática se apoia nas qualidades extraordinárias de um líder.
A alternativa erra em se apoia em regras impessoais e em cargos definidos: isso descreve a dominação legal-racional.
Resultado: alternativa D.
Como a banca cobra: a banca dá a definição de um autor com o nome de outro, ou troca os pares mecânica e orgânica, infraestrutura e superestrutura, fins e valores.
Fato social
Quando um brasileiro fala português, usa dinheiro em reais e se veste de certo jeito para ir a uma entrevista de emprego, ele não inventou nada disso. As regras já existiam antes dele e continuarão depois dele. Durkheim chamou essas maneiras de agir, pensar e sentir de fato social e fez delas o objeto da sociologia.
O fato social tem três características, e a banca pede as três:
- Coercitividade: o fato social se impõe às pessoas, mesmo contra a vontade delas. Quem desobedece sofre uma reação, que pode ir do riso dos colegas até uma punição formal.
- Exterioridade: o fato social existe fora da consciência de cada pessoa e antes dela. A língua, as leis e os costumes estão prontos quando a criança nasce.
- Generalidade: o fato social é coletivo, ou seja, vale para o grupo, e não para uma pessoa só. Um hábito particular de uma pessoa não é fato social.
A coerção nem sempre é sentida, porque a pessoa já interiorizou a regra pela educação. Durkheim dizia que a força da regra aparece quando alguém tenta resistir a ela. Quem vai a um velório de roupa de praia percebe a pressão do grupo que antes não sentia.
A regra de método de Durkheim é tratar os fatos sociais como coisas. Isso não quer dizer que os fatos sociais são objetos físicos, mas que o sociólogo deve observá-los de fora, como dados, e afastar as pré-noções, isto é, as opiniões que trazia antes da pesquisa. Um fato social se explica por outro fato social, e não pela psicologia de cada pessoa.
Durkheim separou o fato social normal do patológico. O fato normal é o que aparece de forma geral numa sociedade de certo tipo, e o patológico é o que foge desse padrão médio. Por isso Durkheim disse que o crime é um fato normal: toda sociedade conhecida tem crimes, e a reação ao crime reforça a consciência coletiva. O que é patológico é uma taxa de crime fora do comum para aquele tipo de sociedade.
Exemplo resolvido: diga se cada caso é fato social na visão de Durkheim.
- A obrigação de votar numa eleição. É fato social: é coercitiva, existe antes do eleitor e vale para o grupo.
- O costume de um servidor de tomar café sempre na mesma xícara. Não é fato social: é hábito individual, sem generalidade nem coerção do grupo.
- A taxa de suicídio de um país, que se mantém parecida por anos. É fato social: Durkheim mostrou que a taxa é coletiva, mesmo que cada caso pareça individual.
- A moda de uma estação. É fato social: quem foge dela sente a pressão do grupo, e a moda existe fora de cada pessoa.
Na prática, um órgão público tem regras de vestuário que ninguém escreveu, mas que todos seguem. O novo servidor que chega de bermuda percebe pelos olhares que quebrou uma regra. Esse olhar é a coerção do fato social.
A diferença para o vizinho mais cobrado é a ação social de Weber. O fato social parte do todo e se impõe de fora para dentro; a ação social parte do sentido que o indivíduo dá à própria ação. Durkheim olha a regra coletiva, e Weber olha a motivação de quem age.
O erro comum é achar que o fato social é qualquer acontecimento que sai no jornal. Um acidente isolado não é fato social; a taxa de acidentes de uma cidade, que se repete e tem causas coletivas, pode ser.
Para Durkheim, a coerção do fato social existe mesmo quando a pessoa não a sente, porque a regra foi interiorizada pela educação e só se mostra de forma clara quando alguém tenta resistir a ela.
Comentário:
Teoria: para Durkheim, a coercitividade do fato social fica oculta quando a pessoa age de acordo com a regra e aparece quando ela resiste.
A afirmação está de acordo com a explicação de Durkheim sobre a coercitividade e a educação.
Resultado: certo.
Um sociólogo observa que a taxa de crimes de uma cidade se mantém estável há anos e afirma, com base em Durkheim, que o crime é um fato normal. Assinale a alternativa que explica corretamente essa afirmação.
- A) O crime aparece de forma geral em toda sociedade conhecida, e a reação a ele reforça a consciência coletiva; patológica seria uma taxa fora do padrão daquele tipo de sociedade.
- B) O crime é normal porque cada criminoso age por motivos pessoais, e a sociologia não deve explicá-lo.
- C) O crime é normal porque não tem coercitividade, e por isso não é fato social.
- D) O crime é normal porque é aprovado pela consciência coletiva.
- E) O crime é normal porque deve ser explicado pela psicologia de cada pessoa, e não por outro fato social.
Comentário:
A) Certa.
Teoria: para Durkheim, o fato normal é o que aparece de forma geral em sociedades do mesmo tipo; o crime está em todas e a punição reforça a consciência coletiva.
A alternativa traz a ideia de normalidade e a distinção para o patológico.
B) Errada.
Teoria: para Durkheim, o fato social se explica por outro fato social, e a taxa de crimes é um fenômeno coletivo.
A alternativa erra em a sociologia não deve explicá-lo: a sociologia explica a taxa de crimes como fato coletivo.
C) Errada.
Teoria: para Durkheim, o crime é fato social, com coercitividade, exterioridade e generalidade.
A alternativa erra em não tem coercitividade, e por isso não é fato social: o crime é fato social, e a reação a ele é coerção.
D) Errada.
Teoria: o crime ofende a consciência coletiva, e a reação a ele reforça os sentimentos comuns.
A alternativa erra em é aprovado pela consciência coletiva: o crime é condenado pela consciência coletiva, e é essa condenação que reforça o grupo.
E) Errada.
Teoria: a regra de método de Durkheim manda explicar um fato social por outro fato social, sem recorrer à psicologia individual.
A alternativa erra em deve ser explicado pela psicologia de cada pessoa: Durkheim recusa essa explicação.
Resultado: alternativa A.
Como a banca cobra: a banca pede as três características, troca exterioridade por interioridade ou generalidade por individualidade, e cobra a tese do crime como fato normal.
Socialização
Um bebê nasce sem saber falar, sem saber o que é certo ou errado e sem saber como se portar à mesa. Anos depois, ele fala a língua do grupo, segue regras e tem uma identidade. O processo que transforma o bebê num membro da sociedade é a socialização: a pessoa aprende e interioriza as normas, os valores, a língua e os papéis do grupo.
A socialização dura a vida inteira e se divide em duas fases, numa classificação ligada aos sociólogos Peter Berger e Thomas Luckmann. A socialização primária acontece na infância, sobretudo na família, e forma a base da personalidade e da visão de mundo. A socialização secundária vem depois e insere a pessoa em setores especializados da sociedade, como a escola, o trabalho, a religião ou uma profissão.
A socialização primária tem carga afetiva forte, porque a criança aprende com pessoas a quem está ligada por afeto e não escolhe quem a socializa. Por isso o que ela aprende nessa fase parece natural e é difícil de mudar. A socialização secundária é mais formal e pode entrar em choque com a primária, como quando o aluno aprende na escola uma explicação científica diferente da que ouvia em casa.
Os agentes de socialização são os grupos e instituições que transmitem as regras:
- A família, principal agente da socialização primária.
- A escola, que ensina conteúdos, disciplina, horários e convivência com estranhos.
- O grupo de pares, isto é, os colegas da mesma idade, que influenciam gostos e condutas.
- Os meios de comunicação e as mídias digitais.
- O trabalho, a religião e as associações.
O fluxo abaixo resume o caminho da socialização ao longo da vida.
- Nascimento sem normas aprendidas
- Socialização primária na família
- Socialização secundária na escola e no trabalho
- A pessoa entra numa instituição que apaga a identidade anterior?SimRessocialização com novos valores e papéisNãoA socialização secundária continua pela vida
A ressocialização é a troca profunda de valores e condutas, quando a pessoa abandona papéis antigos e aprende outros. Ela acontece com força nas instituições totais, conceito do sociólogo Erving Goffman: lugares onde a pessoa vive isolada da sociedade, sob regras de uma autoridade, como prisões, quartéis, conventos e hospitais psiquiátricos. Nessas instituições, o processo começa pela perda da identidade anterior, com a troca de roupa, de nome ou de rotina.
O sociólogo Robert Merton chamou de socialização antecipatória o aprendizado dos valores de um grupo do qual a pessoa ainda não faz parte, mas quer fazer. Um candidato que passa a se vestir e a falar como os servidores do órgão em que quer trabalhar vive esse processo.
George Herbert Mead explicou como a pessoa forma o self, isto é, a consciência de si. A criança primeiro imita, depois brinca de assumir papéis de outras pessoas e, por fim, interioriza o outro generalizado, que é o conjunto das expectativas do grupo inteiro. Para Mead, o self tem duas partes: o "eu", que é a resposta espontânea da pessoa, e o "mim", que é a parte formada pelas expectativas dos outros.
Exemplo resolvido: classifique cada processo vivido por Rafael.
- Aos três anos, Rafael aprende com os pais a falar e a dizer "obrigado". É socialização primária, feita pela família.
- Aos sete anos, aprende na escola a esperar a vez de falar e a cumprir horário. É socialização secundária.
- Aos vinte anos, estuda para a carreira policial e passa a usar o vocabulário dos policiais que conhece. É socialização antecipatória.
- Na academia de polícia, vive em regime fechado, recebe farda, número e regras rígidas. É ressocialização numa instituição com traços de instituição total.
Na prática, um órgão público que faz curso de formação para novos servidores realiza socialização secundária: ensina a linguagem, as rotinas e os valores do serviço público. Se o curso é de internato e corta o contato com a vida anterior, ele se aproxima da ressocialização.
A diferença que a banca mais troca é entre primária e secundária. A primária é a da infância, afetiva e sem escolha do agente; a secundária é posterior, mais formal e ligada a setores da sociedade. A escola é agente de socialização secundária, ainda que a criança entre nela pequena.
O erro comum é achar que a socialização termina na infância. Ela continua na vida adulta, a cada novo emprego, grupo ou papel.
A socialização secundária termina quando a pessoa conclui a escola, porque a partir daí o indivíduo já interiorizou todas as normas da sociedade.
Comentário:
Regra: a socialização é um processo que dura a vida inteira; a secundária continua no trabalho, na religião, nas associações e em cada novo papel social.
A afirmação erra em termina quando a pessoa conclui a escola: o adulto continua a ser socializado em cada novo setor da vida social.
Resultado: errado.
Joana passou num concurso, entrou num curso de formação em regime de internato, recebeu uniforme, perdeu o contato diário com a família e passou a seguir horários fixados por uma autoridade. Sobre o caso, assinale a alternativa correta.
- A) Joana vive socialização primária, porque aprende regras novas.
- B) O curso é exemplo de socialização antecipatória, porque Joana já faz parte do grupo.
- C) A família continua a ser o principal agente da socialização de Joana durante o curso.
- D) Para Mead, o "mim" é a parte espontânea do self, que reage sem as expectativas do grupo.
- E) O curso tem traços de instituição total, nos termos de Goffman, e favorece a ressocialização.
Comentário:
A) Errada.
Regra: a socialização primária é a da infância, na família; o que vem depois é socialização secundária ou ressocialização.
A alternativa erra em Joana vive socialização primária: Joana é adulta e está num processo posterior à infância.
B) Errada.
Teoria: para Merton, a socialização antecipatória é o aprendizado dos valores de um grupo do qual a pessoa ainda não faz parte.
A alternativa erra em porque Joana já faz parte do grupo: quem já faz parte do grupo não vive socialização antecipatória.
C) Errada.
Teoria: na instituição total, a autoridade da instituição organiza a vida da pessoa e corta os laços com a vida anterior.
A alternativa erra em A família continua a ser o principal agente: no internato, o agente central é a própria instituição.
D) Errada.
Teoria: para Mead, o "eu" é a resposta espontânea, e o "mim" é a parte do self formada pelas expectativas dos outros.
A alternativa erra em o "mim" é a parte espontânea do self: a parte espontânea é o "eu".
E) Certa.
Teoria: para Goffman, a instituição total isola a pessoa sob regras de uma autoridade e promove a troca da identidade anterior.
O isolamento, o uniforme e o horário imposto são traços de instituição total, e a troca de papéis é ressocialização.
Resultado: alternativa E.
Como a banca cobra: a banca dá um caso e pede o tipo de socialização, ou troca a família pela escola como agente da primária. Goffman, Mead e Merton aparecem pelos conceitos.
Controle social
Uma sociedade só funciona se a maioria das pessoas segue as normas na maior parte do tempo. A socialização ensina as normas, mas não garante que todos as cumpram. O controle social é o conjunto de meios que uma sociedade usa para levar as pessoas a seguir as normas e para corrigir quem as desobedece.
O controle social tem duas formas. O controle formal é feito por instituições criadas para isso, com regras escritas e agentes próprios, como a polícia, o Judiciário, a escola com seu regimento e a empresa com seu regulamento. O controle informal é feito no convívio, sem regra escrita, pela família, pelos amigos, pelos vizinhos e pela opinião pública, com o elogio, o riso, a fofoca e o afastamento.
O controle funciona por sanções, que são as reações do grupo à conduta da pessoa. A sanção positiva premia a conduta aprovada, como o elogio, a promoção ou a medalha. A sanção negativa pune a conduta reprovada, como a multa, a prisão ou o desprezo. Os dois eixos se combinam: há sanção formal positiva (uma condecoração oficial), formal negativa (uma pena de prisão), informal positiva (o aplauso dos colegas) e informal negativa (a exclusão do grupo de amigos).
O controle também pode ser interno ou externo. O controle interno é o da própria consciência, quando a pessoa segue a norma porque a interiorizou na socialização, sem ninguém vigiando. O controle externo vem de fora, pela pressão dos outros e das instituições.
O controle social se liga ao desvio social, que é a conduta que quebra as normas de um grupo. O desvio é relativo: uma conduta desviante num grupo pode ser aceita em outro, e uma conduta proibida numa época pode ser normal em outra. O desvio não é só crime, porque quebra de etiqueta ou de costume também é desvio.
Robert Merton explicou o desvio pela distância entre as metas culturais, como o sucesso econômico, e os meios institucionais legítimos de alcançá-las, como o estudo e o trabalho. Ele descreveu cinco formas de adaptação:
- Conformidade: a pessoa aceita as metas e os meios.
- Inovação: a pessoa aceita as metas e rejeita os meios legítimos, como quem busca riqueza pelo crime.
- Ritualismo: a pessoa abandona as metas, mas segue os meios por hábito, como o funcionário que cumpre regras sem pensar no resultado.
- Retraimento: a pessoa rejeita as metas e os meios e se afasta da sociedade.
- Rebelião: a pessoa rejeita metas e meios e propõe outros no lugar.
O sociólogo Howard Becker propôs a teoria da rotulação: o desvio não está só no ato, mas na reação do grupo que rotula a pessoa como desviante. O rótulo pode reforçar a conduta desviante, porque a pessoa passa a ser tratada e a se ver como desviante.
Exemplo resolvido: classifique cada sanção recebida por uma servidora chamada Bia.
- O órgão dá a Bia um certificado de servidora destaque do ano. Sanção formal positiva.
- Os colegas aplaudem Bia na reunião. Sanção informal positiva.
- O chefe aplica a Bia uma advertência escrita por atraso. Sanção formal negativa.
- Os colegas param de chamar Bia para o almoço depois de uma discussão. Sanção informal negativa.
Na prática, o controle informal costuma ter mais força no dia a dia que o formal. O servidor que deixa de furar a fila do refeitório por vergonha dos colegas segue a norma sem nenhuma regra escrita.
A diferença que a banca troca é entre controle formal e informal. O critério é quem controla e como: instituição com regra escrita e agente próprio é formal; convívio sem regra escrita é informal. A escola pode fazer os dois, com o regimento (formal) e com a pressão dos colegas (informal).
O erro comum é ligar o controle social só à punição. O controle também premia, e grande parte dele é interna, pela consciência que a socialização formou.
Na tipologia de Merton, o servidor que perdeu de vista os objetivos do seu trabalho, mas segue cada formalidade por hábito, pratica a inovação, porque cria uma forma própria de lidar com as regras.
Comentário:
Teoria: para Merton, o ritualismo é abandonar as metas e manter os meios por hábito; a inovação é aceitar as metas e rejeitar os meios legítimos.
A afirmação erra em pratica a inovação: quem mantém os meios e abandona as metas pratica o ritualismo.
Resultado: errado.
Sobre controle social e desvio, assinale a alternativa correta.
- A) O controle social informal é exercido só por instituições com regras escritas, como a polícia.
- B) A sanção positiva é sempre formal, porque só o Estado pode premiar uma conduta.
- C) O desvio é relativo, porque a mesma conduta pode ser desviante num grupo ou numa época e aceita em outro grupo ou em outra época.
- D) Para Becker, o desvio está só no ato, e a reação do grupo não muda a conduta da pessoa.
- E) O desvio social é sinônimo de crime, porque só a quebra da lei penal é desvio.
Comentário:
A) Errada.
Regra: o controle formal é feito por instituições com regras escritas; o informal é feito no convívio, sem regra escrita.
A alternativa erra em é exercido só por instituições com regras escritas: isso descreve o controle formal.
B) Errada.
Regra: a sanção positiva pode ser formal, como uma medalha, ou informal, como o elogio dos colegas.
A alternativa erra em é sempre formal, porque só o Estado pode premiar: o grupo também premia de forma informal.
C) Certa.
Regra: o desvio é definido pelas normas de cada grupo e de cada época, e por isso é relativo.
A alternativa traz a relatividade do desvio.
D) Errada.
Teoria: para Becker, o desvio depende da reação que rotula a pessoa, e o rótulo pode reforçar a conduta desviante.
A alternativa erra em o desvio está só no ato, e a reação do grupo não muda a conduta da pessoa: a teoria da rotulação afirma o contrário.
E) Errada.
Regra: o desvio é toda quebra das normas de um grupo, inclusive costumes e etiqueta, e o crime é só uma das formas de desvio.
A alternativa erra em é sinônimo de crime: o desvio é mais amplo que o crime.
Resultado: alternativa C.
Como a banca cobra: a banca pede a classificação de uma sanção num caso, troca controle formal por informal e cobra as adaptações de Merton e a rotulação de Becker.
Conceito de instituições sociais
Toda sociedade precisa resolver os mesmos problemas: cuidar das crianças, transmitir conhecimento, produzir e distribuir bens, decidir conflitos e dar sentido à vida e à morte. Com o tempo, cada sociedade cria formas estáveis de resolver esses problemas. Essas formas estáveis são as instituições sociais: conjuntos duradouros de normas, valores, papéis e práticas organizados em torno de uma necessidade social.
As instituições mais cobradas são a família, a religião, a educação, a economia e o Estado. Cada uma responde a uma necessidade: a família cuida da reprodução e da socialização primária; a educação transmite conhecimento e prepara para o trabalho; a economia organiza a produção e a troca; o Estado organiza o poder e decide conflitos; a religião oferece crenças e ritos que dão sentido à vida.
As instituições têm características comuns. Elas são duradouras, porque passam de geração a geração; são exteriores às pessoas, porque existem antes delas; são coercitivas, porque impõem condutas; e são interdependentes, porque a mudança numa instituição atinge as outras, como a entrada das mulheres no mercado de trabalho mudou a família e a escola.
Peter Berger e Thomas Luckmann explicaram como a instituição nasce. Uma ação repetida vira hábito, num processo chamado habitualização. Quando várias pessoas reconhecem esse hábito como o jeito certo de agir, há a tipificação recíproca, e a prática se torna instituição. Para a nova geração, a instituição já aparece pronta e parece natural, e por isso ela precisa ser explicada e justificada, o que os autores chamam de legitimação.
A diferença mais cobrada é entre instituição, grupo e organização. A instituição é o conjunto de normas e práticas; o grupo é o conjunto de pessoas que interagem; a organização é uma entidade concreta, com sede, membros e estrutura formal, criada para um fim. A educação é uma instituição; a escola estadual do bairro é uma organização; a turma do terceiro ano é um grupo.
Na prática, um tribunal de contas é uma organização que faz parte da instituição Estado. Se o tribunal fecha, a instituição continua, porque as normas sobre controle do dinheiro público não dependem daquela sede.
O erro comum é chamar o prédio ou a entidade de instituição no sentido sociológico. A instituição é o padrão de normas, e o prédio é só o lugar de uma organização.
Sobre as instituições sociais, assinale a alternativa correta.
- A) Para Berger e Luckmann, a instituição nasce quando uma ação repetida vira hábito e esse hábito passa a ser reconhecido como o jeito certo de agir pelo grupo.
- B) A instituição social e a organização são sinônimos, porque ambas têm sede, membros e estrutura formal.
- C) As instituições são independentes entre si, e a mudança numa delas não atinge as outras.
- D) A família é a instituição responsável pela socialização secundária.
- E) A instituição social é criada pela vontade de uma pessoa e termina quando essa pessoa morre.
Comentário:
A) Certa.
Teoria: para Berger e Luckmann, a instituição surge da habitualização e da tipificação recíproca das ações.
A alternativa resume os dois passos da institucionalização.
B) Errada.
Regra: a instituição é um conjunto de normas e práticas; a organização é uma entidade concreta com sede e estrutura formal.
A alternativa erra em A instituição social e a organização são sinônimos: a organização é concreta, e a instituição é o padrão de normas.
C) Errada.
Regra: as instituições são interdependentes, e a mudança numa delas atinge as outras.
A alternativa erra em são independentes entre si: a interdependência é uma das características das instituições.
D) Errada.
Regra: a família é o principal agente da socialização primária.
A alternativa erra em socialização secundária: a secundária fica com a escola, o trabalho e outras instituições.
E) Errada.
Regra: a instituição é duradoura, passa de geração a geração e existe antes das pessoas.
A alternativa erra em termina quando essa pessoa morre: a instituição não depende da vida de uma pessoa.
Resultado: alternativa A.
Como a banca cobra: a banca pede as características das instituições e a diferença entre instituição e organização, muitas vezes com um exemplo de órgão público.
O Estado e o controle social
O Estado é a instituição que concentra o controle social formal mais forte da sociedade moderna. Ele cria regras gerais, julga conflitos e pode usar a força para fazer cumprir as decisões. A sociologia estuda o Estado para entender de onde vem esse poder e por que as pessoas o aceitam.
A definição de Estado mais cobrada é a de Max Weber: o Estado é a comunidade humana que reivindica, com sucesso, o monopólio do uso legítimo da força física dentro de um território. A palavra "legítimo" é a chave: o Estado não é só quem tem armas, e sim quem tem a força reconhecida como aceitável pela população. Por isso Weber ligou o Estado moderno à dominação legal-racional e à burocracia.
Os elementos clássicos do Estado são três: o povo, que é o conjunto de pessoas ligadas ao Estado; o território, que é o espaço onde o Estado exerce o poder; e o governo soberano, que é o poder político que não se submete a outro poder interno nem externo. Sem um desses elementos, não há Estado no sentido moderno.
Para Karl Marx, o Estado não é neutro: ele é um instrumento da classe dominante, que usa o direito e a força para manter as relações de produção. O marxista Louis Althusser separou os aparelhos repressivos de Estado, que agem pela força, como a polícia, o exército e as prisões, dos aparelhos ideológicos de Estado, que agem pelas ideias, como a escola, a igreja e a mídia. O italiano Antonio Gramsci chamou de hegemonia a direção que uma classe exerce sobre a sociedade pelo consenso, e não só pela força.
O francês Michel Foucault estudou o poder disciplinar, que controla o corpo e o tempo das pessoas em prisões, escolas, quartéis, fábricas e hospitais. O exemplo que ele analisa é o panóptico, um modelo de prisão criado pelo inglês Jeremy Bentham, em que o vigia vê todos os presos sem ser visto. Como o preso nunca sabe se está sendo observado, ele passa a se vigiar sozinho, e o controle externo se torna interno.
Na prática, o radar de velocidade numa estrada é controle formal do Estado. O motorista reduz a velocidade mesmo quando o radar está desligado, porque não sabe se está sendo observado, o que mostra a lógica do panóptico.
A diferença que a banca troca é entre a força e a legitimidade. Para Weber, a marca do Estado é a força reconhecida como legítima; para Marx, o Estado serve à classe dominante; para Foucault, o poder se espalha pelas instituições e não fica só no Estado.
O erro comum é dizer que, para Weber, o Estado se define pelos fins que persegue, como o bem comum. Weber define o Estado pelo meio que lhe é próprio, a força física legítima.
Para Weber, o que distingue o Estado moderno de outras organizações não são os fins que ele persegue, mas o meio que lhe é próprio: o monopólio do uso legítimo da força física num território.
Comentário:
Teoria: Weber define o Estado pelo meio específico, a força física reconhecida como legítima, e não pelos fins, que variam ao longo da história.
A afirmação traz a definição de Weber com os dois elementos que a banca cobra: o monopólio e a legitimidade.
Resultado: certo.
Como a banca cobra: a banca pede a definição de Weber, troca aparelho repressivo por ideológico em Althusser e cobra o panóptico de Foucault como controle que se torna interno.
Movimentos sociais
Quando moradores de vários bairros se unem por anos para pedir moradia, fazem assembleias, criam uma identidade comum e pressionam o poder público, eles formam um movimento social. Um protesto isolado de um dia, sem organização nem continuidade, não basta. O movimento social é uma ação coletiva organizada e duradoura, com identidade própria, que busca mudar ou impedir uma mudança na sociedade.
O sociólogo Alain Touraine descreveu três princípios do movimento social: a identidade, que é quem o movimento diz ser e quem ele representa; a oposição, que é o adversário contra quem ele luta; e a totalidade, que é o projeto de sociedade que ele defende. Um movimento sem adversário definido ou sem projeto é só uma reivindicação pontual.
A sociologia separa os movimentos clássicos dos novos movimentos sociais. Os movimentos clássicos, como o movimento operário, se organizam em torno da classe social e de questões econômicas, como salário e condições de trabalho. Os novos movimentos sociais, que ganham força na segunda metade do século XX, se organizam em torno da identidade, da cultura e de direitos, como os movimentos feminista, ambientalista, negro e de diversidade sexual.
O movimento social não se confunde com partido político, sindicato ou organização não governamental. O partido busca chegar ao governo pelas eleições; o sindicato representa uma categoria de trabalhadores; a organização não governamental é uma entidade formal que presta serviço ou defende uma causa. O movimento social pode criar ou apoiar essas entidades, mas é mais amplo e menos formal que elas.
A teoria da mobilização de recursos explica por que alguns movimentos crescem e outros não. Para essa teoria, a insatisfação não basta: o movimento precisa de recursos, como dinheiro, pessoas, líderes, contatos e meios de comunicação, e precisa saber usá-los.
Na prática, uma associação de bairro que luta por creche pública há anos, com reuniões, lideranças e um projeto para o bairro, tem traços de movimento social. Um abaixo-assinado feito num dia e esquecido no outro não tem.
O erro comum é chamar de movimento social qualquer multidão ou protesto. O movimento exige organização, continuidade e identidade comum.
Sobre movimentos sociais, assinale a alternativa correta.
- A) O movimento social se define pela busca do poder político por meio de eleições.
- B) Os novos movimentos sociais se organizam sobretudo em torno da classe e do salário.
- C) Para Touraine, basta a identidade comum para existir um movimento social, sem adversário nem projeto.
- D) Os novos movimentos sociais, como o feminista e o ambientalista, se organizam em torno de identidade, cultura e direitos, e não só da classe social.
- E) Uma multidão reunida por um dia, sem organização, já forma um movimento social.
Comentário:
A) Errada.
Regra: quem busca o poder pelas eleições é o partido político; o movimento social é ação coletiva organizada que pressiona por mudanças.
A alternativa erra em se define pela busca do poder político por meio de eleições: essa é a marca do partido.
B) Errada.
Regra: os movimentos clássicos se organizam pela classe e pelas questões econômicas; os novos, pela identidade, pela cultura e por direitos.
A alternativa erra em sobretudo em torno da classe e do salário: essa é a base dos movimentos clássicos.
C) Errada.
Teoria: para Touraine, o movimento social combina identidade, oposição e totalidade.
A alternativa erra em basta a identidade comum: o movimento precisa também de adversário e de projeto.
D) Certa.
Regra: os novos movimentos sociais ganham força na segunda metade do século XX e lutam por identidade, cultura e direitos.
A alternativa traz a base dos novos movimentos sociais.
E) Errada.
Regra: o movimento social exige organização, continuidade e identidade comum.
A alternativa erra em sem organização, já forma um movimento social: a multidão passageira não é movimento social.
Resultado: alternativa D.
Como a banca cobra: a banca pede a diferença entre movimentos clássicos e novos e troca movimento social por partido ou por multidão.
Redes sociais
Na sociologia, rede social não quer dizer aplicativo de internet. Rede social é o conjunto de pessoas, grupos ou organizações, chamados de nós, ligados por relações, chamadas de laços, como parentesco, amizade, trabalho ou troca. A análise de redes estuda o desenho desses laços para entender como circulam informação, ajuda e oportunidades.
O sociólogo Mark Granovetter separou os laços fortes, que ligam pessoas próximas, como família e amigos íntimos, dos laços fracos, que ligam conhecidos. A tese dele, chamada de força dos laços fracos, diz que os conhecidos trazem informação nova com mais frequência, porque circulam em outros grupos, e por isso ajudam mais a achar emprego que os amigos íntimos, que sabem as mesmas coisas que a pessoa.
O capital social é o valor que uma pessoa ou um grupo tira das suas relações. Para Pierre Bourdieu, o capital social é o conjunto de recursos ligados à rede de relações duradouras de uma pessoa, e ele se soma ao capital econômico e ao capital cultural. Para Robert Putnam, o capital social é a confiança, as normas de reciprocidade e as redes de participação que facilitam a cooperação numa comunidade. O espanhol Manuel Castells chamou de sociedade em rede a sociedade organizada em torno de redes de informação apoiadas na tecnologia digital.
As plataformas digitais são só um meio onde as redes sociais aparecem. Uma rede de vizinhos que se ajudam sem internet também é rede social no sentido sociológico.
Pela tese da força dos laços fracos, uma pessoa que procura emprego tende a receber informação nova com mais frequência de conhecidos de outros grupos do que de amigos íntimos, que costumam saber as mesmas coisas que ela.
Comentário:
Teoria: para Granovetter, os laços fracos ligam grupos diferentes e por isso trazem informação que não circula no círculo de laços fortes.
A afirmação descreve a tese da força dos laços fracos.
Resultado: certo.
Como a banca cobra: a banca separa o conceito sociológico de rede do aplicativo de internet e cobra Granovetter e o capital social de Bourdieu e Putnam.
- Sociologia: conceitos fundamentais
- Conceitos básicos
- Senso comum e ciência
- Grupo primário e secundário
- Status e papel social
- Comunidade e sociedade
- Clássicos
- Comte e o positivismo
- Durkheim e a solidariedade
- Weber e a ação social
- Marx e a luta de classes
- Fato social
- Coercitividade
- Exterioridade
- Generalidade
- Socialização
- Primária na família
- Secundária na escola e no trabalho
- Ressocialização
- Controle social
- Formal e informal
- Sanções positivas e negativas
- Desvio e adaptações de Merton
- Instituições e Estado
- Habitualização e tipificação
- Monopólio da força legítima
- Poder disciplinar
- Movimentos e redes
- Novos movimentos sociais
- Laços fortes e fracos
- Capital social
- Conceitos básicos
Quadros e comparações
A tabela abaixo compara os quatro autores clássicos pelo objeto e pelos conceitos centrais.
| Autor | Corrente | Objeto | Conceitos-chave |
|---|---|---|---|
| Comte | Positivismo | Leis da sociedade | Três estados, estática e dinâmica |
| Durkheim | Funcionalismo e positivismo | Fato social | Solidariedade, anomia, consciência coletiva |
| Weber | Sociologia compreensiva | Ação social | Tipo ideal, dominação, racionalização |
| Marx | Materialismo histórico | Relações de produção | Luta de classes, mais-valia, alienação |
A tabela abaixo compara a socialização primária e a secundária.
| Critério | Socialização primária | Socialização secundária |
|---|---|---|
| Momento | Infância | Depois da infância, pela vida toda |
| Agente principal | Família | Escola, trabalho, religião, associações |
| Carga afetiva | Forte | Mais fraca e mais formal |
| Escolha do agente | Não há | Pode haver |
A tabela abaixo mostra os quatro tipos de ação social de Weber com um exemplo de cada.
| Tipo de ação | O que move a pessoa | Exemplo |
|---|---|---|
| Racional com relação a fins | Cálculo de meios e consequências | Estudar o edital para passar |
| Racional com relação a valores | Convicção, sem pesar consequências | Devolver uma carteira por honestidade |
| Afetiva | Emoção do momento | Bater a porta com raiva |
| Tradicional | Hábito enraizado | Seguir um ritual de família |
A tabela abaixo combina os dois eixos das sanções sociais.
| Sanção | Positiva | Negativa |
|---|---|---|
| Formal | Medalha ou promoção oficial | Multa ou prisão |
| Informal | Elogio dos colegas | Exclusão do grupo |
A tabela abaixo separa os três tipos de dominação legítima de Weber.
| Dominação | Base da obediência | Exemplo |
|---|---|---|
| Legal-racional | Regras impessoais | Burocracia de um órgão público |
| Tradicional | Costume e tradição | Poder do patriarca |
| Carismática | Qualidades extraordinárias do líder | Líder religioso ou político seguido pelo carisma |
Para decorar
- Sociologia: ciência das relações sociais, nascida no século XIX depois das revoluções Industrial e Francesa.
- Status e papel: o status é a posição; o papel é o comportamento esperado de quem a ocupa.
- Lei dos três estados (Comte): teológico, metafísico e positivo, nessa ordem.
- Solidariedade mecânica: pessoas parecidas, sociedades simples. Orgânica: divisão do trabalho, sociedades modernas.
- Anomia (Durkheim): falta ou enfraquecimento das normas.
- Fato social: coercitividade, exterioridade e generalidade; tratado como coisa.
- Ação social (Weber): ação com sentido, orientada pelo comportamento dos outros; quatro tipos.
- Dominação (Weber): legal-racional, tradicional e carismática.
- Marx: infraestrutura condiciona a superestrutura; luta de classes; mais-valia.
- Socialização primária: infância, família. Secundária: escola, trabalho, pela vida toda.
- Instituição total (Goffman): isola a pessoa sob uma autoridade e favorece a ressocialização.
- Adaptações de Merton: conformidade, inovação, ritualismo, retraimento e rebelião.
- Estado (Weber): monopólio do uso legítimo da força física num território.
- Movimento social (Touraine): identidade, oposição e totalidade.
- Força dos laços fracos (Granovetter): conhecidos trazem informação nova.
Pegadinhas
| # | Errado | Certo |
|---|---|---|
| 1 | Papel social é a posição que a pessoa ocupa no grupo. | A posição é o status; o papel é o comportamento esperado de quem ocupa o status. |
| 2 | Para Comte, o estado metafísico é o mais avançado. | Para Comte, o estado mais avançado é o positivo, baseado na ciência. |
| 3 | A solidariedade orgânica é típica das sociedades simples. | A orgânica é típica das sociedades modernas, com divisão do trabalho; a mecânica é das simples. |
| 4 | Anomia é um conceito de Weber. | Anomia é um conceito de Durkheim: falta ou enfraquecimento das normas. |
| 5 | O fato social tem interioridade, porque nasce na consciência de cada pessoa. | O fato social tem exterioridade: existe fora da consciência de cada pessoa e antes dela. |
| 6 | Para Durkheim, o crime é sempre um fato patológico. | O crime é fato normal; patológica é a taxa fora do padrão daquele tipo de sociedade. |
| 7 | A escola é o principal agente da socialização primária. | A família é o principal agente da primária; a escola é agente da secundária. |
| 8 | Agir por convicção, sem pesar as consequências, é ação racional com relação a fins. | É ação racional com relação a valores. |
| 9 | O controle social só pune condutas reprovadas. | O controle também premia, com sanções positivas formais e informais. |
| 10 | Para Weber, o Estado se define pelo bem comum que persegue. | Weber define o Estado pelo monopólio do uso legítimo da força física num território. |
| 11 | Os novos movimentos sociais se organizam sobretudo pela classe e pelo salário. | Os novos se organizam por identidade, cultura e direitos; a classe é a base dos clássicos. |
| 12 | Na sociologia, rede social quer dizer aplicativo de internet. | Rede social é o conjunto de nós ligados por laços, com ou sem internet. |
Fontes e data
- [1] Conteúdo de sociologia clássica de livro didático (Comte, Durkheim, Weber, Marx, Berger e Luckmann, Goffman, Mead, Merton, Becker, Althusser, Gramsci, Foucault, Touraine, Granovetter, Bourdieu, Putnam e Castells). O tópico não tem norma técnica pública.
Texto conferido em 14/10/2026.