O que mais cai
| Parte do tópico | Importância | O que a banca cobra |
|---|---|---|
| Aspectos gerais e lesões corporais | Alta | Energias vulnerantes, reação vital, escoriação, equimose, hematoma e graus da lesão corporal |
| Energia de ordem física | Média | Queimaduras por grau, regra dos nove, raio e eletricidade industrial, insolação e intermação |
| Energia de ordem mecânica | Alta | Instrumento e ferida correspondente, leis de Filhos e de Langer, cauda de escoriação, pontes de tecido |
| Balística forense de efeitos (lesões) | Alta | Entrada e saída, orlas, zonas de tatuagem e esfumaçamento, distância do tiro, sinais com nome de autor |
| Energia de ordem química (toxicologia médico-legal) | Média | Cáusticos coagulantes e liquefacientes, vitriolagem, venenos, monóxido de carbono, fases da embriaguez |
| Energia de ordem físico-química (asfixiologia médico-legal) | Alta | Enforcamento, estrangulamento e esganadura, sufocação, afogamento, sinais gerais e sinais com nome de autor |
| Energia de ordem biodinâmica, bioquímica e mista (sevícias) | Média | Choque, inanição, fadiga, sevícias e síndrome da criança maltratada |
Do que trata o tópico
A traumatologia médico-legal é a parte da Medicina Legal que estuda as lesões produzidas por uma energia externa sobre o corpo humano. O tópico classifica essas energias (mecânica, física, química, físico-química, bioquímica, biodinâmica e mista) e ensina a reconhecer a lesão típica de cada uma. Com esse conhecimento, o perito diz qual meio causou a lesão, se ela foi feita em vida, quando foi feita e, em muitos casos, se o quadro sugere acidente, suicídio ou homicídio.
Conteúdo
Aspectos gerais e lesões corporais
Uma pessoa chega à delegacia com o rosto inchado e diz que levou um soco. A autoridade precisa saber se a lesão existe, que meio a causou e qual a gravidade dela. Quem responde é o perito, no exame de corpo de delito, e a ferramenta dele é a traumatologia.
A traumatologia médico-legal estuda as lesões corporais e os estados patológicos, imediatos ou tardios, que resultam de uma violência sobre o corpo. A causa dessa violência recebe o nome de energia vulnerante, isto é, a energia capaz de ferir. O instrumento é o meio que transmite a energia: a faca, o soco, o raio, o ácido, a corda.
A classificação mais usada nas provas divide as energias vulnerantes em sete ordens:
- Mecânica: a energia que muda o estado de repouso ou de movimento de um corpo, como a faca, o pau e o projétil.
- Física: a temperatura, a eletricidade, a pressão atmosférica, a radiação, a luz e o som.
- Química: os cáusticos e os venenos.
- Físico-química: as asfixias, em que falta oxigênio no sangue.
- Bioquímica: a falta de alimento, as autointoxicações e as infecções.
- Biodinâmica: o choque e a falência de vários órgãos.
- Mista: a fadiga, as doenças parasitárias e as sevícias.
A ordem da energia não depende do instrumento, e sim do modo como ele age. O fogo é energia física, mas o gás que a fumaça produz pode matar por asfixia, que é energia físico-química. Por isso o perito descreve o mecanismo da morte e não apenas o objeto encontrado no local.
Lesão corporal é toda ofensa à integridade corporal ou à saúde de uma pessoa. A integridade corporal é a parte anatômica (a pele, o osso, o órgão), e a saúde é o funcionamento normal do corpo e da mente. Uma pessoa pode sofrer lesão corporal sem ferida visível: o desmaio provocado, a perturbação mental e a doença transmitida de propósito também ofendem a saúde.
A lei penal gradua a lesão corporal pela consequência que ela deixa. Os termos que a Medicina Legal usa para explicar essa graduação são estes:
- lesão leve: a lesão que não se enquadra em nenhum dos resultados mais graves;
- lesão grave: incapacidade para as ocupações habituais por tempo maior que o fixado na lei penal, perigo de vida, debilidade permanente de membro, sentido ou função, ou aceleração de parto;
- lesão gravíssima: incapacidade permanente para o trabalho, enfermidade incurável, perda ou inutilização de membro, sentido ou função, deformidade permanente ou aborto;
- lesão seguida de morte: a morte resulta da lesão, sem que o autor quisesse a morte.
Debilidade é a redução da capacidade de um membro, sentido ou função, e perda é a falta total dessa capacidade. Quem perde um dos rins sofre debilidade da função renal, porque o outro rim mantém a função, e não perda. A mesma lógica vale para os órgãos duplos (olhos, ouvidos): a perda de um deles é debilidade do sentido ou da função.
O perigo de vida é a probabilidade concreta e imediata de morte, que o perito constata no exame, e não a mera possibilidade. Um tiro no abdome que exige cirurgia de urgência gera perigo de vida, mesmo que a vítima se recupere. A deformidade permanente é o dano estético visível, duradouro e que causa constrangimento, como a cicatriz extensa no rosto.
Quando a lesão pode causar incapacidade para as ocupações habituais por tempo maior que o da lei penal, o perito faz um exame complementar depois de passado esse prazo. Esse exame confirma se a incapacidade durou o tempo que a lei exige. O laudo do primeiro exame só descreve a lesão e prevê a evolução dela.
A pergunta mais importante do perito diante de uma lesão é se ela foi feita em vida. A reação vital é o conjunto de sinais que só aparecem quando o coração bate e o sangue circula:
- hemorragia infiltrativa: o sangue penetra nas malhas dos tecidos em volta da ferida e não sai com a lavagem;
- coagulação do sangue: o sangue da ferida forma coágulo aderido às bordas;
- retração das bordas: os tecidos vivos se retraem e afastam as bordas da ferida;
- crosta e inflamação: aparecem quando a vítima sobrevive por algum tempo;
- equimose: o sangue extravasa porque ainda há pressão nos vasos.
Uma lesão feita depois da morte não tem esses sinais: as bordas ficam pálidas, o sangue não infiltra os tecidos e não coagula. Por isso o perito consegue dizer se um corpo foi jogado de uma ponte já morto, para simular um acidente.
As lesões mais simples da pele e dos tecidos moles aparecem em quase todas as perícias. A rubefação é a vermelhidão passageira da pele depois de um tapa, que some em minutos ou horas. A escoriação é o arrancamento da epiderme (a camada mais externa da pele) que expõe a derme, e ela forma uma crosta.
A escoriação é uma lesão sempre produzida em vida quando forma crosta, e por isso tem grande valor no exame. Como só atinge a epiderme e a parte mais superficial da derme, ela em regra não deixa cicatriz. A forma da escoriação também revela o meio: as escoriações em meia-lua no pescoço indicam unhas.
A equimose é a infiltração de sangue nas malhas dos tecidos, sem formar cavidade, depois da rotura de pequenos vasos. O hematoma é a coleção de sangue numa cavidade nova, que o próprio sangue abre ao descolar os tecidos. Quando o hematoma fica sobre um plano ósseo, como na cabeça, ele forma uma elevação chamada bossa sanguínea, o popular galo.
A equimose muda de cor com o tempo, porque o corpo degrada a hemoglobina (o pigmento vermelho do sangue) em outros pigmentos. Essa sequência de cores recebe o nome de espectro equimótico de Legrand du Saulle, e ela permite estimar a idade da lesão. Os prazos são aproximados e variam com a pessoa, o local e o tamanho da equimose:
- vermelha no primeiro dia;
- violácea do segundo ao terceiro dia;
- azulada do quarto ao sexto dia;
- esverdeada do sétimo ao décimo dia;
- amarelada a partir de cerca do décimo segundo dia;
- desaparecimento por volta do décimo quinto ao vigésimo dia.
- 1º diavermelha
- 2º e 3º diasviolácea
- 4º ao 6º diaazulada
- 7º ao 10º diaesverdeada
- a partir do 12º diaamarelada
- 15º ao 20º diadesaparece
A equimose da conjuntiva (a membrana branca do olho) é a exceção mais cobrada. Ela fica vermelha até sumir, porque o oxigênio do ar chega ao sangue através da membrana fina e impede a mudança de cor. Também não muda de cor a equimose muito pequena, que some antes de passar por todas as fases.
Exemplo resolvido: uma criança tem três equimoses no braço, uma vermelha, uma azulada e uma amarelada, e a mãe diz que ela caiu da cama ontem.
- A equimose vermelha é compatível com o primeiro dia.
- A equimose azulada é compatível com o quarto ao sexto dia.
- A equimose amarelada é compatível com cerca de doze dias ou mais.
- As três equimoses têm idades diferentes e não podem resultar de uma só queda de ontem.
- Resultado: o quadro indica agressões repetidas em datas diferentes, e o perito registra a incompatibilidade com a história contada.
Na prática, um homem diz que o vizinho o agrediu há uma semana, e o perito encontra uma equimose ainda vermelha no braço dele. A cor é compatível com uma lesão do primeiro dia, e não de sete dias. O laudo registra a cor e a idade provável, e cabe à autoridade confrontar os relatos.
A banca troca equimose com hematoma. A equimose infiltra o tecido sem cavidade e não pode ser drenada, e o hematoma forma uma cavidade com sangue coletado, que pode ser puncionada. Outro erro comum é achar que toda escoriação deixa cicatriz, quando a regra é o contrário.
A escoriação é lesão que atinge a epiderme e expõe a derme; quando forma crosta, indica produção em vida e, por atingir camadas profundas da derme, sempre deixa cicatriz permanente.
Comentário:
Regra: a escoriação arranca a epiderme e atinge no máximo a parte superficial da derme, e por isso em regra cicatriza sem deixar marca.
A afirmação erra em por atingir camadas profundas da derme, sempre deixa cicatriz permanente: a escoriação não chega às camadas profundas e em regra não deixa cicatriz. A primeira parte, sobre a crosta como sinal de produção em vida, está certa.
Resultado: errado.
Um perito examina uma vítima e encontra uma mancha arroxeada na coxa, sem elevação, que não sai à pressão e que não forma cavidade. Na conjuntiva do olho direito, há uma mancha vermelha viva. A vítima afirma que as duas lesões surgiram na mesma agressão, há cinco dias. Assinale a alternativa correta.
- A) A mancha da coxa é um hematoma, porque o sangue extravasado sempre forma cavidade nos tecidos.
- B) A mancha da conjuntiva pode ter cinco dias, porque a equimose dessa região fica vermelha até desaparecer.
- C) A mancha da conjuntiva tem no máximo um dia, porque a cor vermelha marca o primeiro dia do espectro equimótico.
- D) A mancha da coxa não tem valor para indicar lesão em vida, porque a equimose também surge depois da morte.
- E) As duas manchas têm a mesma idade, porque o espectro equimótico segue o mesmo ritmo em todas as regiões do corpo.
Comentário:
A) Errada.
Regra: a equimose infiltra o sangue nas malhas dos tecidos sem formar cavidade; o hematoma forma uma cavidade nova com sangue coletado.
A alternativa erra em o sangue extravasado sempre forma cavidade nos tecidos: a mancha sem elevação e sem cavidade é uma equimose.
B) Certa.
Regra: a equimose da conjuntiva permanece vermelha até desaparecer, porque o oxigênio do ar atravessa a membrana e impede a mudança de cor.
A cor vermelha da conjuntiva não serve para datar a lesão. Por isso ela pode ter cinco dias, como diz a vítima.
C) Errada.
Regra: a equimose da conjuntiva é exceção ao espectro equimótico e fica vermelha em todas as fases.
A alternativa erra em porque a cor vermelha marca o primeiro dia do espectro equimótico: essa regra não vale para a conjuntiva.
D) Errada.
Regra: a equimose depende da pressão do sangue nos vasos e por isso é sinal de reação vital.
A alternativa erra em a equimose também surge depois da morte: sem circulação, o sangue não infiltra os tecidos como na equimose.
E) Errada.
Regra: as cores do espectro equimótico variam com a região, a profundidade e o tamanho da lesão, e a conjuntiva não segue o espectro.
A alternativa erra em o espectro equimótico segue o mesmo ritmo em todas as regiões do corpo: os prazos são aproximados e a conjuntiva é exceção.
Resultado: alternativa B.
Como a banca cobra: a banca pede a ordem das cores do espectro equimótico, a exceção da conjuntiva e a diferença entre equimose, hematoma e escoriação. Também pede a diferença entre debilidade e perda de membro, sentido ou função.
Energia de ordem física
Num incêndio, a vítima pode morrer pela queimadura, pelo calor do ambiente ou pela fumaça. O perito precisa separar cada efeito, porque cada um tem sinais próprios. As energias de ordem física são a temperatura, a eletricidade, a pressão atmosférica, a radiação, a luz e o som.
A temperatura age de forma local ou geral. O calor local produz a queimadura, e o calor geral produz dois quadros. A insolação é o mal causado pelo calor do sol em ambiente aberto, e a intermação é o mal causado pelo calor em ambiente fechado e pouco ventilado, como a sala de caldeiras.
A classificação médico-legal das queimaduras segue quatro graus:
- Primeiro grau: eritema, isto é, vermelhidão da pele, sem bolha.
- Segundo grau: flictenas, isto é, bolhas com líquido.
- Terceiro grau: escara, isto é, a área de tecido morto, endurecida, que atinge toda a espessura da pele.
- Quarto grau: carbonização, em que o tecido vira carvão e pode atingir músculo e osso.
A gravidade da queimadura depende mais da extensão do que da profundidade. Uma queimadura de primeiro grau em quase todo o corpo pode matar, e uma de terceiro grau num dedo não. Para medir a extensão, o perito usa a regra dos nove, de Wallace, que divide o corpo do adulto em partes de 9% ou múltiplos de 9%.
| Região do corpo do adulto | Superfície |
|---|---|
| Cabeça e pescoço | 9% |
| Cada membro superior | 9% |
| Parte da frente do tronco | 18% |
| Parte de trás do tronco | 18% |
| Cada membro inferior | 18% |
| Períneo | 1% |
Exemplo resolvido: um adulto sofre queimaduras em toda a cabeça, em todo o braço direito e em toda a parte da frente do tronco.
- Cabeça e pescoço: 9%.
- Membro superior direito: 9%.
- Parte da frente do tronco: 18%.
- Soma: 9 + 9 + 18 = 36%.
- Resultado: a queimadura atinge 36% da superfície corporal.
A regra dos nove vale para o adulto. Na criança, a cabeça é maior em relação ao corpo, e por isso o perito usa tabelas próprias para a idade, como a de Lund e Browder.
No cadáver carbonizado, a pergunta central é se a pessoa estava viva durante o incêndio. Os sinais de vida são a fuligem nas vias aéreas abaixo das cordas vocais, que mostra que a vítima respirou a fumaça, e o monóxido de carbono no sangue. A flictena com líquido rico em proteínas e com halo vermelho em volta também indica reação vital, e esse achado recebe o nome de sinal de Chambert.
O frio local produz as geladuras, que também têm graus: palidez e eritema, depois flictenas, depois necrose e, no grau mais alto, gangrena com perda da parte. O frio geral produz a hipotermia, que pode matar sem lesão local visível.
A eletricidade tem duas fontes. A eletricidade natural é o raio: a fulminação é a morte causada pelo raio, e a fulguração é a lesão sem morte. A eletricidade artificial, ou industrial, produz a eletroplessão, que é a lesão ou a morte pela corrente da rede elétrica.
Cada fonte tem um sinal típico. A marca elétrica de Jellinek aparece no ponto de entrada da corrente artificial: lesão endurecida, de cor branco-amarelada, com bordas elevadas e centro deprimido, indolor e sem sangramento, que muitas vezes reproduz a forma do condutor. A figura de Lichtenberg aparece no raio: um desenho avermelhado na pele, com forma de galhos de árvore, que some em poucas horas.
A pressão atmosférica causa lesões quando muda de forma brusca. Na grande altitude, o ar rarefeito causa o mal das montanhas. Na descompressão rápida, como na subida brusca do mergulhador, o gás dissolvido no sangue forma bolhas e causa a doença descompressiva.
A radiação ionizante causa queimaduras e doenças que aparecem com atraso. A luz intensa lesa a retina, e o som intenso lesa a audição, inclusive com perda permanente.
Na prática, um eletricista cai morto ao tocar num fio de alta tensão, e o perito encontra na palma da mão uma lesão branca, endurecida, com centro afundado e sem sangue. A lesão é a marca elétrica de Jellinek e confirma a passagem da corrente industrial. O perito procura também o ponto de saída, em regra nos pés.
A banca troca o raio com a corrente industrial. A figura de Lichtenberg pertence ao raio e some rápido, e a marca de Jellinek pertence à eletricidade artificial e é permanente no cadáver. Outro erro comum é inverter insolação (sol, ambiente aberto) e intermação (calor, ambiente fechado).
Um operário é encontrado morto dentro de uma caldeira desligada, num ambiente fechado com temperatura muito alta, sem sinais de queimadura na pele. Em outra ocorrência, um agricultor morre num campo aberto durante uma tempestade e apresenta na pele do tronco um desenho avermelhado em forma de galhos. Assinale a alternativa correta.
- A) O operário morreu por insolação, porque o calor geral sempre recebe esse nome.
- B) O agricultor sofreu eletroplessão, porque a figura em galhos é típica da corrente industrial.
- C) O desenho em galhos do agricultor é a marca elétrica de Jellinek, permanente e endurecida.
- D) O operário sofreu intermação, e o agricultor sofreu fulminação, com figura de Lichtenberg.
- E) O agricultor sofreu fulguração, porque esse é o nome da morte causada pelo raio.
Comentário:
A) Errada.
Regra: a insolação é o mal causado pelo calor do sol em ambiente aberto; a intermação é o mal causado pelo calor em ambiente fechado.
A alternativa erra em o calor geral sempre recebe esse nome: o calor em ambiente fechado causa intermação.
B) Errada.
Regra: a eletroplessão é a lesão ou a morte pela eletricidade artificial; a figura de Lichtenberg é sinal do raio.
A alternativa erra em a figura em galhos é típica da corrente industrial: o desenho em galhos é a figura de Lichtenberg, do raio.
C) Errada.
Regra: a marca de Jellinek é a lesão de entrada da corrente artificial, endurecida e branco-amarelada.
A alternativa erra em é a marca elétrica de Jellinek, permanente e endurecida: o desenho avermelhado em galhos é a figura de Lichtenberg, que some em poucas horas.
D) Certa.
Regra: o calor em ambiente fechado causa intermação; a morte por raio é a fulminação, e o raio pode deixar a figura de Lichtenberg.
A caldeira é ambiente fechado e quente, sem sol. A tempestade com morte e desenho em galhos indica fulminação pelo raio.
E) Errada.
Regra: a fulguração é a lesão por raio sem morte; a fulminação é a morte por raio.
A alternativa erra em esse é o nome da morte causada pelo raio: a morte pelo raio é a fulminação.
Resultado: alternativa D.
Como a banca cobra: a banca pede os graus das queimaduras, a regra dos nove e a diferença entre fulguração, fulminação e eletroplessão. A marca de Jellinek e a figura de Lichtenberg aparecem em quase toda questão de eletricidade.
Energia de ordem mecânica
A energia de ordem mecânica é a que muda o estado de repouso ou de movimento de um corpo e produz lesão. Ela age de três modos: o instrumento em movimento atinge o corpo parado (a facada), o corpo em movimento atinge um objeto parado (a queda) ou os dois se movem (o atropelamento). A maior parte das perícias de lesão corporal trata desta energia.
O perito classifica o instrumento pelo modo como ele age, e cada modo produz uma ferida típica. O instrumento pode agir por ponta (perfurar), por gume (cortar) ou por superfície (contundir), e há instrumentos que juntam dois desses modos. O nome da ferida acompanha o nome do instrumento.
| Instrumento | Modo de ação | Ferida | Exemplos |
|---|---|---|---|
| Perfurante | Ponta | Punctória ou puntiforme | Agulha, prego, furador de gelo |
| Cortante | Gume, por deslizamento | Incisa | Navalha, lâmina de barbear, bisturi |
| Contundente | Superfície, por pressão ou choque | Contusa | Pau, soco, pedra, queda |
| Perfurocortante | Ponta e gume | Perfuroincisa | Faca de ponta, punhal |
| Cortocontundente | Gume e peso | Cortocontusa | Machado, foice, facão, dentes |
| Perfurocontundente | Ponta romba e força | Perfurocontusa | Projétil de arma de fogo, ponta de guarda-chuva |
O instrumento perfurante age por ponta fina e afasta as fibras da pele, sem cortá-las. O de pequeno calibre, como a agulha, deixa uma ferida puntiforme, quase um ponto, que sangra pouco por fora e pode atingir órgãos profundos. O de médio calibre deixa uma ferida em forma de fenda, a botoeira, porque a pele se abre no sentido das fibras elásticas.
As feridas do instrumento perfurante seguem regras com nome de autor:
- Primeira lei de Filhos: a ferida do instrumento perfurante de médio calibre tem forma de botoeira e se parece com a ferida de um instrumento cortante de dois gumes.
- Segunda lei de Filhos: na mesma região do corpo, onde as linhas de força da pele têm um só sentido, as feridas têm sempre a mesma direção.
- Lei de Langer: no ponto em que se encontram linhas de força de sentidos diferentes, a ferida toma a forma de ponta de seta, de triângulo ou de quadrilátero.
As linhas de força (ou linhas de Langer) são as direções em que as fibras elásticas da pele se organizam. Como a pele se abre ao longo dessas linhas, a direção da fenda depende da região, e não da forma do instrumento. Por isso dois furos do mesmo furador, no mesmo braço, ficam paralelos.
O instrumento cortante age por um gume afiado que desliza sobre a pele com pouca pressão. A ferida incisa tem bordas regulares e lisas, ausência de pontes de tecido no fundo, sangramento abundante e afastamento das bordas. O comprimento da ferida é maior que a profundidade.
A ferida incisa é mais profunda no início e no meio e fica mais rasa no fim, onde o gume deixa a pele. Nesse ponto final ela termina numa escoriação fina, a cauda de escoriação, que mostra o sentido do golpe. Se a cauda está do lado esquerdo do pescoço, o corte terminou nesse lado.
O instrumento contundente age por uma superfície, por pressão, choque, arrastamento ou torção. Ele produz desde lesões sem ferida aberta (rubefação, escoriação, equimose, hematoma, fratura, luxação, rotura de órgão interno) até a ferida contusa. A ferida contusa tem bordas irregulares, escoriadas e equimosadas, fundo irregular, sangramento menor e pontes de tecido, isto é, fibras, vasos e nervos que resistem e ligam as duas bordas no fundo.
A ponte de tecido é o sinal que separa a ferida contusa da incisa. O gume corta todas as fibras pelo caminho, e por isso a ferida incisa não tem pontes. A superfície rompe as fibras mais fracas e deixa as mais resistentes inteiras.
O instrumento perfurocortante age por ponta e gume ao mesmo tempo. A ferida perfuroincisa é mais profunda que larga e tem forma de botoeira. Se a lâmina tem um gume só, um dos ângulos da ferida é agudo (o do gume) e o outro é arredondado (o do dorso da lâmina); se tem dois gumes, os dois ângulos são agudos.
O instrumento cortocontundente age por gume associado a grande peso ou força, como o machado e a foice. A ferida cortocontusa tem bordas mais regulares que a contusa, mas com equimose e escoriação em volta, e costuma atingir o osso. A mordida humana é cortocontundente: deixa a marca da arcada e pode identificar o autor.
O instrumento perfurocontundente age por ponta romba (não afiada) com força, e o exemplo típico é o projétil de arma de fogo. A ferida dele é estudada na balística de efeitos, na parte seguinte.
Exemplo resolvido: um corpo tem uma ferida no pescoço com bordas lisas, sem pontes de tecido no fundo, mais funda do lado direito e com uma escoriação fina na ponta esquerda.
- Bordas lisas e ausência de pontes indicam gume afiado.
- Comprimento maior que profundidade, sem ferida em profundidade, indica deslizamento, e não perfuração.
- A ferida é incisa, feita por instrumento cortante.
- A cauda de escoriação marca o fim do golpe, no lado esquerdo.
- Resultado: o corte começou à direita e terminou à esquerda.
Na prática, uma mulher chega ao hospital com várias feridas pequenas, em fenda, todas paralelas, no braço. As feridas foram feitas por um furador de gelo, e não por uma faca de dois gumes, como ela imaginava. A primeira lei de Filhos explica a semelhança das duas feridas, e a segunda lei explica o paralelismo das fendas.
O erro mais comum é dizer que a botoeira prova o uso de faca. Pela primeira lei de Filhos, o instrumento perfurante de médio calibre também deixa botoeira. Outro erro é chamar de incisa a ferida com pontes de tecido, que é contusa.
Pela segunda lei de Filhos, feridas produzidas por instrumento perfurante de médio calibre numa mesma região do corpo, onde as linhas de força têm um só sentido, apresentam sempre a mesma direção.
Comentário:
Teoria: a segunda lei de Filhos diz que, na mesma região, onde as linhas de força têm um só sentido, as feridas do instrumento perfurante têm sempre a mesma direção.
A afirmação reproduz a segunda lei de Filhos. A direção da fenda acompanha as linhas de força da pele, e não a forma do instrumento.
Resultado: certo.
O perito descreve uma ferida no abdome com bordas irregulares e escoriadas, fundo irregular e filamentos de tecido que ligam uma borda à outra no fundo da lesão. Sobre essa ferida, assinale a alternativa correta.
- A) A ferida é contusa, e os filamentos são pontes de tecido que o instrumento de superfície não rompe.
- B) A ferida é incisa, porque a ferida do gume afiado também mantém pontes de tecido no fundo.
- C) A ferida é perfuroincisa, porque as bordas escoriadas indicam ponta e gume ao mesmo tempo.
- D) A ferida é puntiforme, típica do instrumento perfurante de pequeno calibre, como a agulha.
- E) A ferida é cortocontusa, e as pontes de tecido provam o uso de um machado.
Comentário:
A) Certa.
Regra: a ferida contusa tem bordas irregulares, escoriadas e equimosadas e pontes de tecido no fundo, porque a superfície rompe só as fibras mais fracas.
Os três achados (bordas irregulares, fundo irregular, pontes de tecido) são típicos da ferida contusa.
B) Errada.
Regra: o gume corta todas as fibras pelo caminho, e por isso a ferida incisa não tem pontes de tecido.
A alternativa erra em a ferida do gume afiado também mantém pontes de tecido no fundo: a ausência de pontes é a marca da ferida incisa.
C) Errada.
Regra: a ferida perfuroincisa tem forma de botoeira, bordas regulares e é mais profunda que larga.
A alternativa erra em as bordas escoriadas indicam ponta e gume ao mesmo tempo: bordas escoriadas indicam ação de superfície.
D) Errada.
Regra: a ferida puntiforme é quase um ponto, sem bordas irregulares nem pontes visíveis.
A alternativa erra em A ferida é puntiforme: a ferida descrita tem bordas e fundo irregulares, e não forma de ponto.
E) Errada.
Regra: a ferida cortocontusa tem bordas mais regulares que a contusa e resulta de gume com grande peso; ponte de tecido é sinal da ferida contusa.
A alternativa erra em as pontes de tecido provam o uso de um machado: as pontes indicam instrumento contundente, e não cortocontundente.
Resultado: alternativa A.
Como a banca cobra: a banca dá a descrição da ferida e pede o instrumento, ou dá o instrumento e pede a ferida. As leis de Filhos e de Langer, a cauda de escoriação e as pontes de tecido aparecem com frequência.
Balística forense de efeitos (lesões)
A balística forense divide-se em três partes: a interna estuda a arma e o disparo, a externa estuda o trajeto do projétil no ar e a de efeitos estuda o que o projétil e os resíduos do tiro fazem no corpo. A Medicina Legal trata da balística de efeitos. As perguntas do perito são onde o projétil entrou, onde saiu, qual o trajeto e a que distância a arma estava.
O projétil age como instrumento perfurocontundente: a ponta romba empurra e rompe a pele com força. Além do projétil, o disparo lança resíduos que saem pela boca do cano: a chama, os gases, a fuligem (fumaça) e os grãos de pólvora que não queimaram. Esses resíduos alcançam a pele só quando a arma está perto, e por isso servem para medir a distância.
Os efeitos se dividem em dois grupos. Os efeitos primários são os do próprio projétil e aparecem em qualquer distância. Os efeitos secundários são os dos resíduos do disparo e só aparecem no tiro a curta distância.
Os efeitos primários da ferida de entrada são estes:
- orla de escoriação (ou de contusão): uma faixa sem epiderme em volta do orifício, porque o projétil arranca a epiderme ao entrar;
- orla de enxugo: uma faixa escura na borda do orifício, formada pela sujeira, graxa e resíduos que o projétil deixa ao passar pela pele, como se ele se limpasse nela;
- aréola equimótica: uma área de equimose em volta, pela rotura de pequenos vasos;
- bordas invertidas: as bordas voltadas para dentro, no sentido da entrada.
A forma da ferida de entrada mostra o ângulo do tiro. No tiro perpendicular à pele, o orifício e a orla de escoriação são circulares. No tiro oblíquo, o orifício fica ovalado, e a orla de escoriação fica mais larga do lado de onde o projétil veio.
Os efeitos secundários formam as zonas em volta do orifício:
- zona de chamuscamento (ou de queimadura): a chama queima a pele e os pelos, e só aparece com a arma muito próxima;
- zona de esfumaçamento: a fuligem se deposita na pele e sai com a lavagem;
- zona de tatuagem: os grãos de pólvora se encravam na pele e não saem com a lavagem.
A diferença entre tatuagem e esfumaçamento é a mais cobrada. A fuligem fica só por cima da pele e sai com água; os grãos de pólvora entram na pele e ficam presos. Por isso a tatuagem resiste à lavagem, e o esfumaçamento não.
Pela presença das zonas, o perito classifica o tiro em três distâncias:
- Tiro encostado: a boca do cano toca a pele. Os gases entram no corpo junto com o projétil.
- Tiro a curta distância: a arma está perto o bastante para os resíduos chegarem à pele. Aparecem as zonas de tatuagem e de esfumaçamento, e às vezes a de chamuscamento.
- Tiro a distância: a arma está longe e os resíduos não chegam à pele. Só aparecem os efeitos primários.
A distância exata em que os resíduos deixam de chegar à pele depende da arma e da munição, e o perito a confirma com tiros de teste na mesma arma. Por isso o laudo não usa um número fixo para todas as armas.
O tiro encostado tem sinais próprios. Na câmara de mina de Hoffmann, os gases entram sob a pele, encontram um plano ósseo (como o crânio), voltam e rasgam a pele de dentro para fora, e a ferida de entrada fica estrelada e irregular. No sinal de Werkgaertner, a boca do cano e a massa de mira ficam desenhadas na pele, pela pressão e pelo calor do cano encostado.
O sinal de Benassi é o anel de fuligem na face externa do osso, em volta do orifício, no tiro encostado ao crânio. A pele pode não mostrar fuligem por fora, porque os gases a levam para baixo da pele. Por isso o perito examina o osso antes de afastar o tiro encostado.
Nos ossos planos, como o crânio, o orifício tem forma de funil. O sinal do funil de Bonnet é esse cone: o orifício é menor na face do osso por onde o projétil entra e maior na face por onde ele sai, como um tronco de cone que se abre no sentido do trajeto. No crânio, a entrada tem o lado maior voltado para dentro, e a saída tem o lado maior voltado para fora.
A ferida de saída tem características opostas às da entrada:
- bordas evertidas, voltadas para fora;
- forma irregular, muitas vezes estrelada ou em fenda;
- ausência de orla de escoriação e de orla de enxugo;
- ausência das zonas de tatuagem e de esfumaçamento;
- em regra maior que a entrada, porque o projétil se deforma e arrasta tecidos.
As regras da saída têm exceções. Quando a pele de saída está apoiada contra uma superfície dura (uma parede, o encosto da cadeira), a saída pode ter uma orla de escoriação. E a saída pode ser menor que a entrada, como no tiro encostado com câmara de mina.
- Examina a ferida de entrada
- Há câmara de mina, sinal de Werkgaertner ou sinal de Benassi?SimTiro encostadoNãoProcura as zonas em volta do orifício
- Há tatuagem ou esfumaçamento?SimTiro a curta distânciaNãoTiro a distância, só com efeitos primários
O fluxo vale para o tiro encostado sobre plano ósseo. Fora do plano ósseo, como no abdome, o tiro encostado não forma câmara de mina nem sinal de Benassi, porque não há osso logo abaixo da pele para refletir os gases. Nesse caso, o perito encontra a fuligem e a queimadura nas bordas e dentro do trajeto, e esse achado também indica tiro encostado, e não tiro a curta distância.
Exemplo resolvido: um cadáver tem um orifício circular no peito com orla de escoriação, orla de enxugo e grãos de pólvora encravados em volta, que não saem com a lavagem. Nas costas, há uma ferida irregular, com bordas para fora e sem orlas.
- A orla de escoriação, a orla de enxugo e as bordas invertidas marcam o orifício do peito como entrada.
- A ferida das costas, irregular, com bordas evertidas e sem orlas, é a saída.
- Os grãos de pólvora que resistem à lavagem formam a zona de tatuagem.
- A zona de tatuagem só existe no tiro a curta distância.
- O orifício circular indica tiro perpendicular à pele.
- Resultado: tiro a curta distância, de frente para trás, perpendicular ao peito.
Na prática, um homem é encontrado morto com a arma na mão e um orifício na têmpora, e a família diz que ele se matou. O perito encontra câmara de mina e o desenho da boca do cano na pele, e no osso há o anel de fuligem de Benassi. Os achados indicam tiro encostado, compatível com a versão de suicídio, que depois o perito confronta com os outros elementos do local.
O erro mais comum é concluir que a ausência de tatuagem prova tiro a distância. No tiro encostado, os resíduos entram no corpo e podem não marcar a pele por fora; por isso o perito procura a câmara de mina e o anel de fuligem no osso. Outro erro é trocar a orla de enxugo (efeito do projétil) com a zona de esfumaçamento (efeito da fuligem).
A zona de esfumaçamento, formada pela fuligem do disparo, resiste à lavagem da pele e indica tiro encostado, ao passo que a zona de tatuagem sai com água e indica tiro a distância.
Comentário:
Regra: a fuligem fica sobre a pele e sai com a lavagem; os grãos de pólvora se encravam na pele e resistem à lavagem; as duas zonas indicam tiro a curta distância.
A afirmação erra em resiste à lavagem da pele e indica tiro encostado e em a zona de tatuagem sai com água e indica tiro a distância: a fuligem sai com a lavagem, a tatuagem resiste, e as duas zonas aparecem no tiro a curta distância. No tiro a distância, os resíduos não chegam à pele.
Resultado: errado.
Um perito examina a ferida de entrada de um tiro na região frontal do crânio. A pele em volta do orifício não tem fuligem nem grãos de pólvora, mas a ferida é estrelada e irregular, e a face externa do osso tem um anel escuro de fuligem em volta do orifício. Assinale a alternativa correta.
- A) O tiro foi a distância, porque a pele não tem zona de tatuagem nem de esfumaçamento.
- B) O anel de fuligem no osso é o sinal do funil de Bonnet, que mostra o sentido do trajeto.
- C) A ferida é de saída, porque toda ferida estrelada e irregular é ferida de saída.
- D) O anel no osso é a orla de enxugo, formada pela sujeira do projétil.
- E) O tiro foi encostado, com câmara de mina de Hoffmann e sinal de Benassi.
Comentário:
A) Errada.
Regra: no tiro encostado, os gases e a fuligem entram sob a pele, e a pele pode ficar sem zonas por fora.
A alternativa erra em O tiro foi a distância: o anel de fuligem no osso mostra que os resíduos entraram no corpo, o que só ocorre no tiro encostado.
B) Errada.
Regra: o sinal de Bonnet é a forma de funil do orifício no osso plano; o anel de fuligem na face externa do osso é o sinal de Benassi.
A alternativa erra em é o sinal do funil de Bonnet: o anel de fuligem tem o nome de Benassi.
C) Errada.
Regra: a câmara de mina de Hoffmann torna estrelada e irregular a ferida de entrada do tiro encostado sobre plano ósseo.
A alternativa erra em toda ferida estrelada e irregular é ferida de saída: a entrada do tiro encostado sobre o crânio também é estrelada.
D) Errada.
Regra: a orla de enxugo é a faixa escura na borda do orifício da pele, formada pela sujeira do projétil.
A alternativa erra em é a orla de enxugo: a orla de enxugo fica na pele e não forma anel de fuligem no osso.
E) Certa.
Regra: no tiro encostado sobre plano ósseo, os gases formam a câmara de mina de Hoffmann, e a fuligem forma o anel de Benassi na face externa do osso.
A ferida estrelada indica câmara de mina, e o anel de fuligem no osso é o sinal de Benassi. Os dois achados indicam tiro encostado.
Resultado: alternativa E.
Como a banca cobra: a banca pede a diferença entre ferida de entrada e de saída, entre tatuagem e esfumaçamento e entre efeitos primários e secundários. Os sinais de Hoffmann, Werkgaertner, Benassi e Bonnet aparecem com a descrição trocada.
Energia de ordem química (toxicologia médico-legal)
As energias de ordem química agem por reação química com os tecidos. Elas se dividem em dois grupos: os cáusticos, que lesam o ponto de contato, e os venenos, que agem depois de absorvidos pelo organismo. A toxicologia médico-legal estuda os venenos, as intoxicações e o modo de provar a presença deles no corpo.
Os cáusticos destroem os tecidos no local do contato e se dividem pela escara que produzem:
- cáusticos coagulantes: desidratam os tecidos e formam escaras secas, duras e escuras; o exemplo típico são os ácidos, como o sulfúrico e o nítrico, e também o nitrato de prata;
- cáusticos liquefacientes: dissolvem os tecidos e formam escaras úmidas, moles e translúcidas; o exemplo típico são as bases (álcalis), como a soda cáustica e a amônia.
A vitriolagem é a lesão produzida por cáustico lançado contra a vítima, em geral no rosto, para desfigurar. O nome vem do vitríolo, nome antigo do ácido sulfúrico. A lesão costuma ser grave pela deformidade permanente que deixa.
O veneno é a substância que, introduzida no organismo, altera a saúde ou causa a morte por ação química. O conceito é relativo, porque a mesma substância pode ser remédio ou veneno conforme a dose e a via. Por isso o perito considera a dose, a via, a pessoa e o modo como a substância foi usada.
O envenenamento é a intoxicação provocada, por crime ou por suicídio. A intoxicação é o termo mais amplo e inclui também o acidente, como a criança que bebe um produto de limpeza. Quando a intoxicação aparece em várias pessoas ao mesmo tempo, o perito investiga a fonte comum, como um alimento ou um gás.
Alguns venenos deixam sinais que o perito reconhece no exame:
- monóxido de carbono: gás sem cheiro e sem cor, que se liga à hemoglobina e forma a carboxi-hemoglobina; o cadáver tem livores (manchas de sangue da parte baixa do corpo) de cor rosa-carmim;
- cianeto: pode deixar cheiro de amêndoas amargas;
- arsênico: deposita-se nos cabelos e nas unhas, o que permite provar intoxicação antiga; nas unhas podem surgir faixas brancas transversais, as linhas de Mees;
- inseticidas organofosforados e carbamatos: produzem pupilas contraídas (miose), salivação e suor abundantes.
O monóxido de carbono merece atenção especial porque une três assuntos. Ele é veneno (energia química), mata por falta de oxigênio nos tecidos e aparece nos incêndios (energia física). A carboxi-hemoglobina no sangue de um cadáver carbonizado prova que a vítima respirou durante o incêndio.
A embriaguez pelo álcool é cobrada pelas fases clássicas, que a Medicina Legal compara a animais:
- Fase de excitação (fase do macaco): euforia, desinibição e fala solta.
- Fase de confusão (fase do leão): agressividade, perda de coordenação e de equilíbrio.
- Fase comatosa (fase do porco): sono profundo, coma e risco de morte.
A perícia da embriaguez combina o exame clínico (andar, fala, hálito, coordenação) com o exame de laboratório do sangue ou do ar expirado. O exame clínico sozinho mostra o estado da pessoa, e o exame de laboratório mede a quantidade de álcool.
Na prática, uma família inteira passa mal numa casa fechada no inverno, com um aquecedor a gás aceso. O pai morre, e o cadáver tem livores rosa-carmim. O perito pede a dosagem de carboxi-hemoglobina, que confirma a intoxicação pelo monóxido de carbono e explica a fonte comum.
A banca troca os dois tipos de cáustico. O ácido forma escara seca e dura (coagulante), e a base forma escara úmida e mole (liquefaciente). Outro erro é dizer que a vitriolagem é a ingestão de ácido, quando ela é o lançamento do cáustico contra a vítima.
Os cáusticos coagulantes, como o ácido sulfúrico, desidratam os tecidos e formam escaras secas e duras, ao passo que os cáusticos liquefacientes, como a soda cáustica, formam escaras úmidas e moles.
Comentário:
Regra: os ácidos agem como cáusticos coagulantes e formam escara seca e dura; as bases agem como cáusticos liquefacientes e formam escara úmida e mole.
A afirmação descreve corretamente os dois grupos de cáusticos e dá um exemplo certo de cada um.
Resultado: certo.
Num apartamento fechado, com um aquecedor a gás com defeito, um homem é encontrado morto na cama. O cadáver tem livores de cor rosa-carmim. Os vizinhos contam que ele bebeu muito na noite anterior, ficou agressivo, perdeu o equilíbrio e depois dormiu profundamente. A perícia não encontra sinal de ação de outra pessoa. Assinale a alternativa correta.
- A) Os livores rosa-carmim indicam intoxicação por arsênico, que se liga à hemoglobina e forma as linhas de Mees.
- B) O caso é envenenamento, porque toda intoxicação que termina em morte recebe esse nome.
- C) A agressividade e a perda de equilíbrio da noite anterior marcam a fase do macaco da embriaguez.
- D) Os livores rosa-carmim indicam monóxido de carbono, e o caso é intoxicação acidental, sem envenenamento.
- E) O sono profundo depois da bebida marca a fase de excitação, também chamada fase do porco.
Comentário:
A) Errada.
Regra: o monóxido de carbono forma a carboxi-hemoglobina e deixa livores rosa-carmim; o arsênico se deposita nos cabelos e nas unhas.
A alternativa erra em intoxicação por arsênico, que se liga à hemoglobina: quem se liga à hemoglobina e deixa livores rosa-carmim é o monóxido de carbono. As linhas de Mees são faixas brancas nas unhas.
B) Errada.
Regra: o envenenamento é a intoxicação provocada, por crime ou por suicídio; a intoxicação é o termo amplo e inclui o acidente.
A alternativa erra em toda intoxicação que termina em morte recebe esse nome: a morte não define o envenenamento. O que define o envenenamento é a intoxicação provocada, e aqui a fonte é um aquecedor com defeito.
C) Errada.
Regra: a fase do macaco é a da excitação, com euforia e desinibição; a fase do leão é a da confusão, com agressividade e perda de coordenação e de equilíbrio.
A alternativa erra em fase do macaco: agressividade e perda de equilíbrio marcam a fase de confusão, a fase do leão.
D) Certa.
Regra: o monóxido de carbono forma a carboxi-hemoglobina e deixa livores rosa-carmim; a intoxicação acidental não é envenenamento.
Os livores rosa-carmim e o aquecedor com defeito apontam o monóxido de carbono, e a dosagem de carboxi-hemoglobina confirma. Sem ação de outra pessoa e sem suicídio, o caso é intoxicação acidental.
E) Errada.
Regra: a fase do porco é a fase comatosa, com sono profundo e coma; a fase de excitação é a fase do macaco.
A alternativa erra em fase de excitação: o sono profundo marca a fase comatosa, que é a fase do porco.
Resultado: alternativa D.
Como a banca cobra: a banca pede a diferença entre cáusticos coagulantes e liquefacientes, o conceito de vitriolagem e os sinais do monóxido de carbono. As fases da embriaguez aparecem com os nomes dos animais trocados.
Energia de ordem físico-química (asfixiologia médico-legal)
A asfixia é a falta de oxigênio no sangue e nos tecidos, com acúmulo de gás carbônico. A energia é chamada físico-química porque um meio físico (a corda, a água, a mão, a terra) impede uma troca química, a troca de gases no pulmão e nos tecidos. A asfixiologia médico-legal estuda as asfixias provocadas por violência.
As asfixias mecânicas se agrupam pelo modo como a respiração é impedida:
- constrição do pescoço: enforcamento, estrangulamento e esganadura;
- obstrução das vias aéreas: sufocação direta, como a mão que tapa a boca e o nariz ou o corpo estranho na garganta;
- compressão do tórax: sufocação indireta, que impede o movimento de respirar;
- mudança do meio: afogamento (líquido), soterramento (terra ou areia), confinamento (ambiente fechado sem renovação do ar) e gases que não servem para respirar.
O corpo passa por fases até a morte por asfixia. Primeiro vem a fase cerebral, com tontura e perda de consciência; depois a fase de excitação, com convulsões; depois a fase respiratória, com falta de ar e parada da respiração; por fim a fase cardíaca, com parada do coração. O coração é o último a parar.
Os sinais gerais de asfixia aparecem em qualquer tipo e por isso não indicam qual foi o meio:
- cianose, isto é, cor azulada da face e das extremidades;
- sangue escuro e fluido, que não coagula bem;
- congestão dos órgãos internos;
- manchas de Tardieu, pequenas hemorragias puntiformes sob a pleura (membrana do pulmão) e sob o pericárdio (membrana do coração);
- petéquias (pequenos pontos de sangue) na conjuntiva e no rosto.
O que define o tipo de asfixia são os sinais específicos, que o perito busca no pescoço, nas vias aéreas e no ambiente.
No enforcamento, o laço envolve o pescoço e a força que aperta é o peso do próprio corpo. Por isso o corpo não precisa ficar suspenso por inteiro: no enforcamento incompleto, os pés ou os joelhos tocam o chão, e o peso de parte do corpo basta. O enforcamento é típico quando o nó fica na nuca, e atípico quando o nó fica em outra posição.
O sulco do enforcamento, isto é, a marca que o laço deixa na pele, tem características próprias: é oblíquo e ascendente (sobe em direção ao nó), descontínuo (some na região do nó), mais profundo do lado oposto ao nó e em geral fica acima da cartilagem da laringe. O fundo do sulco fica pergaminhado, isto é, seco e duro como couro. O sinal de Amussat, uma rotura transversal da camada interna da artéria carótida, também é achado do enforcamento.
No estrangulamento, o laço aperta o pescoço por uma força diferente do peso do corpo, em regra a força muscular de outra pessoa. O sulco é horizontal, contínuo (dá a volta completa no pescoço), de profundidade uniforme e em geral fica na altura ou abaixo da laringe. O estrangulamento costuma ser homicídio.
Na esganadura, a constrição é feita pelas mãos. Não há sulco: o pescoço mostra equimoses arredondadas da ponta dos dedos e escoriações em meia-lua das unhas, os estigmas ungueais. A fratura do osso hioide (o osso em forma de ferradura na frente do pescoço) é frequente.
A esganadura é sempre homicídio. Quem tenta se esganar perde a consciência, e as mãos soltam o pescoço antes da morte. Por isso a esganadura nunca é suicídio, e o acidente também não tem como produzi-la.
| Achado | Enforcamento | Estrangulamento | Esganadura |
|---|---|---|---|
| Meio | Laço | Laço | Mãos |
| Força que aperta | Peso do próprio corpo | Força de outra pessoa | Força das mãos |
| Direção do sulco | Oblíqua e ascendente | Horizontal | Não há sulco |
| Continuidade | Descontínuo no nó | Contínuo | Não se aplica |
| Causa jurídica mais comum | Suicídio | Homicídio | Sempre homicídio |
Na sufocação direta, algo tapa a boca e o nariz ou obstrui a garganta. O rosto pode ter escoriações e equimoses em volta da boca e do nariz, e a vítima pode ter um corpo estranho nas vias aéreas. O recém-nascido e a pessoa desacordada são as vítimas mais comuns do homicídio por esse meio.
Na sufocação indireta, a compressão do tórax e do abdome impede o movimento de respirar, como na multidão que esmaga as pessoas ou no soterramento parcial. O sinal típico é a máscara equimótica de Morestin: o rosto, o pescoço e a parte alta do tórax ficam roxos e cheios de petéquias, porque o sangue não consegue descer.
No afogamento, um líquido ocupa as vias aéreas e impede a entrada de ar. O afogado azul é o que se debate e aspira água, com asfixia verdadeira. O afogado branco é o que morre logo ao entrar na água, por inibição (parada do coração por reflexo), sem asfixia típica.
Os sinais do afogamento se dividem em dois grupos. Alguns indicam que a pessoa entrou viva na água:
- cogumelo de espuma: espuma fina, branca e persistente que sai da boca e do nariz;
- manchas de Paltauf: manchas hemorrágicas azuladas, grandes, sob a pleura dos pulmões;
- diatomáceas e plâncton (algas microscópicas da água) na medula óssea e em órgãos distantes, levados pela circulação;
- água e areia nas vias aéreas profundas e no estômago.
Outros sinais indicam apenas que o corpo ficou na água, vivo ou morto:
- pele anserina (arrepiada, como pele de ganso);
- mãos de lavadeira: a pele das mãos e dos pés fica branca, enrugada e depois se solta como luva;
- mancha verde da putrefação que começa no tórax e na cabeça, e não no abdome, como no cadáver comum.
A distinção entre os dois grupos decide se a pessoa se afogou ou foi jogada morta na água. As mãos de lavadeira aparecem também no cadáver jogado na água depois da morte, e por isso não provam afogamento. O cogumelo de espuma e as diatomáceas na medula óssea exigem circulação e respiração, e por isso indicam que a vítima estava viva.
No soterramento, a vítima fica coberta por terra, areia ou outro material sólido, e o perito encontra esse material nas vias aéreas e no estômago. No confinamento, a pessoa fica num espaço fechado, sem renovação do ar, e morre pelo consumo do oxigênio e pelo acúmulo de gás carbônico. Nos dois casos, a presença do material ou a falta de ventilação decidem o diagnóstico.
Exemplo resolvido: um corpo é encontrado no chão de um quarto, com uma corda solta ao lado. O pescoço tem um sulco horizontal, contínuo, de profundidade igual em toda a volta, abaixo da laringe.
- O sulco horizontal indica força aplicada em linha reta em volta do pescoço, e não o peso do corpo puxando para cima.
- O sulco contínuo indica laço sem nó suspenso, apertado por todos os lados.
- A profundidade uniforme confirma força igual em toda a volta.
- Esses três achados são do estrangulamento.
- Resultado: estrangulamento, cuja causa jurídica mais comum é o homicídio, e o perito registra a incompatibilidade com um enforcamento.
Na prática, uma mulher é encontrada morta na cama, com o rosto roxo. O pescoço não tem sulco, mas tem equimoses arredondadas e marcas em meia-lua, e o exame interno mostra fratura do osso hioide. O quadro é de esganadura, e a causa jurídica é homicídio, porque ninguém se esgana.
A banca troca os três meios de constrição do pescoço, e a tabela acima resolve a maior parte das questões. Outro erro comum é usar sinais gerais, como as manchas de Tardieu, para dizer o tipo de asfixia, quando eles aparecem em todos os tipos.
No enforcamento, o sulco é em regra horizontal, contínuo e de profundidade uniforme, situado abaixo da laringe, e a força que aperta o laço é a de outra pessoa, o que torna essa forma de asfixia típica do homicídio.
Comentário:
Regra: no enforcamento, o sulco é oblíquo, ascendente e descontínuo no nó, e a força que aperta é o peso do próprio corpo; o sulco horizontal, contínuo e uniforme é do estrangulamento.
A afirmação erra em o sulco é em regra horizontal, contínuo e de profundidade uniforme, situado abaixo da laringe e em a força que aperta o laço é a de outra pessoa: essas características são do estrangulamento. O enforcamento tem como causa jurídica mais comum o suicídio.
Resultado: errado.
Um corpo é retirado de um rio. O perito encontra pele anserina, mãos de lavadeira e mancha verde da putrefação no tórax. Ele pede ainda a pesquisa de diatomáceas na medula óssea. Assinale a alternativa correta sobre o valor desses achados.
- A) As mãos de lavadeira provam que a vítima entrou viva na água, porque exigem circulação.
- B) A mancha verde no tórax indica que a vítima morreu fora da água e foi jogada no rio depois.
- C) As diatomáceas na medula óssea indicam que a vítima entrou viva na água, porque chegam lá pela circulação.
- D) A pele anserina é sinal exclusivo de afogamento em vida e dispensa outros exames.
- E) As manchas de Paltauf, caso existam, são sinais gerais de asfixia e não ajudam o diagnóstico.
Comentário:
A) Errada.
Regra: as mãos de lavadeira resultam da maceração da pele pela água e aparecem também no cadáver jogado morto na água.
A alternativa erra em provam que a vítima entrou viva na água, porque exigem circulação: a maceração não depende da circulação.
B) Errada.
Regra: no corpo que fica na água, a mancha verde da putrefação começa no tórax e na cabeça.
A alternativa erra em indica que a vítima morreu fora da água e foi jogada no rio depois: a mancha verde no tórax é típica do corpo que ficou na água, e não prova morte fora dela.
C) Certa.
Regra: as diatomáceas chegam à medula óssea e aos órgãos distantes pela circulação, o que exige que a vítima esteja viva ao aspirar a água.
A presença das algas na medula óssea indica que o coração batia quando a água entrou nos pulmões.
D) Errada.
Regra: a pele anserina indica permanência do corpo na água e aparece também no cadáver jogado morto.
A alternativa erra em é sinal exclusivo de afogamento em vida e dispensa outros exames: o achado não distingue vivo de morto.
E) Errada.
Regra: as manchas de Paltauf são manchas hemorrágicas sob a pleura, próprias do afogamento; as manchas de Tardieu são as petéquias dos sinais gerais.
A alternativa erra em são sinais gerais de asfixia e não ajudam o diagnóstico: as manchas de Paltauf são sinal do afogamento.
Resultado: alternativa C.
Como a banca cobra: a banca pede a tabela de enforcamento, estrangulamento e esganadura e os sinais com nome de autor (Tardieu, Paltauf, Amussat, Morestin). No afogamento, ela pede quais sinais provam que a vítima entrou viva na água.
Energia de ordem biodinâmica, bioquímica e mista (sevícias)
As três últimas ordens de energia têm em comum a ação sobre o funcionamento do corpo inteiro, e não sobre um ponto da pele. Elas aparecem quando a lesão não é um corte ou um tiro, mas uma falência do organismo ou uma série de agressões repetidas. Por isso exigem do perito o exame da história da vítima, além do exame do corpo.
A energia biodinâmica é a que causa a falência da circulação e dos órgãos. O exemplo central é o choque, isto é, a falta de sangue e de oxigênio nos tecidos, que pode vir de grande perda de sangue (choque hipovolêmico), de dor intensa, de queimadura extensa ou de infecção. Se o choque se prolonga, os órgãos param um a um, no quadro chamado falência de múltiplos órgãos.
A energia bioquímica age por falta ou excesso de substâncias no organismo:
- perturbações alimentares: a inanição (falta total de alimento) e as carências (falta de um nutriente);
- autointoxicações: o próprio corpo acumula substâncias tóxicas, como na falência dos rins;
- infecções: a lesão abre caminho para microrganismos, como no tétano depois de um ferimento.
A inanição tem interesse médico-legal quando é imposta a uma pessoa que depende de outra, como a criança, o idoso, o doente ou o preso. O corpo mostra emagrecimento extremo, pele seca, olhos fundos e falta de gordura sob a pele. O perito investiga se a falta de alimento foi intencional ou por abandono.
A energia mista junta a ação de mais de uma ordem. Os exemplos clássicos são a fadiga, que é o desgaste do organismo por esforço excessivo e prolongado, como no trabalho forçado; as doenças parasitárias; e as sevícias.
As sevícias são maus-tratos repetidos contra uma pessoa em situação de dependência, como a criança, o idoso, o deficiente ou o cônjuge. A marca das sevícias é a repetição: o corpo mostra lesões de idades diferentes, que não se explicam por um acidente único. O perito usa o espectro equimótico e o grau de consolidação das fraturas para datar cada lesão.
A síndrome da criança maltratada, também chamada síndrome de Silverman, é o quadro típico das sevícias na infância:
- equimoses e escoriações de cores diferentes, em várias partes do corpo;
- fraturas em fases diferentes de consolidação, vistas na radiografia;
- lesões em áreas pouco expostas a quedas, como costas, nádegas, orelhas e face interna das coxas;
- marcas com a forma do objeto usado, como cinto, fio ou cigarro;
- história contada pelos responsáveis que não explica as lesões, e demora em buscar atendimento.
A síndrome do bebê sacudido é a forma em que o adulto chacoalha com força um bebê pequeno. Por fora, pode não haver nenhuma lesão; por dentro, há sangramento entre o cérebro e as membranas que o envolvem (hematoma subdural) e hemorragias na retina. Esse quadro mostra que a ausência de lesão externa não afasta os maus-tratos.
Na prática, um menino de três anos chega ao pronto-socorro com o braço quebrado, e a mãe diz que ele caiu do sofá. A radiografia mostra ainda duas costelas com calo ósseo antigo, e o corpo tem equimoses azuladas e amareladas nas costas. As lesões de idades diferentes, em área pouco exposta a quedas, com história que não as explica, formam o quadro da síndrome da criança maltratada.
A banca troca as três ordens. O choque é biodinâmico, a inanição e a infecção são bioquímicas, e a fadiga e as sevícias são mistas. Outro erro é exigir lesão externa para o diagnóstico de maus-tratos, quando a síndrome do bebê sacudido pode não ter nenhuma.
Na síndrome da criança maltratada, a presença de lesões em diferentes fases de evolução, como equimoses de cores diferentes e fraturas em fases distintas de consolidação, é achado típico e reforça a hipótese de agressões repetidas.
Comentário:
Regra: as sevícias são maus-tratos repetidos, e a marca delas são lesões de idades diferentes, datadas pelo espectro equimótico e pela consolidação das fraturas.
A afirmação descreve o achado central da síndrome. Lesões de idades diferentes não se explicam por um acidente único.
Resultado: certo.
Como a banca cobra: a banca pede a ordem de energia de cada exemplo (choque, inanição, fadiga, sevícias) e os achados da síndrome da criança maltratada. A síndrome do bebê sacudido aparece como exceção à regra da lesão externa visível.
- Traumatologia médico-legal
- Aspectos gerais
- Sete ordens de energia
- Reação vital
- Escoriação, equimose, hematoma
- Espectro equimótico
- Lesão leve, grave, gravíssima
- Energia física
- Queimaduras em quatro graus
- Regra dos nove
- Fulguração e fulminação
- Eletroplessão e marca de Jellinek
- Energia mecânica
- Seis tipos de instrumento
- Leis de Filhos e de Langer
- Cauda de escoriação
- Pontes de tecido
- Balística de efeitos
- Efeitos primários e orlas
- Zonas de tatuagem e esfumaçamento
- Tiro encostado, curto, distante
- Entrada e saída
- Energia química
- Cáusticos coagulantes e liquefacientes
- Vitriolagem
- Venenos e monóxido de carbono
- Fases da embriaguez
- Energia físico-química
- Enforcamento, estrangulamento, esganadura
- Sufocação direta e indireta
- Afogamento azul e branco
- Sinais gerais e específicos
- Biodinâmica, bioquímica e mista
- Choque
- Inanição e infecções
- Fadiga e sevícias
- Criança maltratada
- Aspectos gerais
Quadros e comparações
A tabela abaixo compara as feridas de entrada e de saída do projétil de arma de fogo.
| Achado | Ferida de entrada | Ferida de saída |
|---|---|---|
| Bordas | Invertidas | Evertidas |
| Forma | Circular ou ovalada | Irregular, estrelada ou em fenda |
| Orla de escoriação | Presente | Ausente, salvo pele apoiada |
| Orla de enxugo | Presente | Ausente |
| Tatuagem e esfumaçamento | Presentes no tiro a curta distância | Ausentes |
| Tamanho | Em regra menor | Em regra maior |
A tabela abaixo compara as zonas e as orlas que a banca costuma trocar.
| Marca | Causa | Sai com lavagem | Distância do tiro |
|---|---|---|---|
| Orla de escoriação | Projétil arranca a epiderme | Não | Qualquer distância |
| Orla de enxugo | Sujeira do projétil | Não | Qualquer distância |
| Zona de esfumaçamento | Fuligem | Sim | Curta distância |
| Zona de tatuagem | Grãos de pólvora encravados | Não | Curta distância |
| Zona de chamuscamento | Chama | Não | Muito próxima |
A tabela abaixo compara as feridas incisa, contusa e perfuroincisa.
| Achado | Incisa | Contusa | Perfuroincisa |
|---|---|---|---|
| Instrumento | Cortante | Contundente | Perfurocortante |
| Bordas | Regulares e lisas | Irregulares e escoriadas | Regulares |
| Pontes de tecido | Ausentes | Presentes | Ausentes |
| Medida maior | Comprimento | Variável | Profundidade |
| Sangramento | Abundante | Menor | Variável, interno |
A tabela abaixo compara os dois tipos de cáustico.
| Tipo | Ação | Escara | Exemplos |
|---|---|---|---|
| Coagulante | Desidrata os tecidos | Seca, dura e escura | Ácido sulfúrico, ácido nítrico, nitrato de prata |
| Liquefaciente | Dissolve os tecidos | Úmida, mole e translúcida | Soda cáustica, amônia |
A tabela abaixo reúne os sinais com nome de autor.
| Sinal | O que é | Assunto |
|---|---|---|
| Legrand du Saulle | Cores da equimose ao longo dos dias | Lesões em geral |
| Jellinek | Marca de entrada da corrente artificial | Eletricidade |
| Lichtenberg | Desenho em galhos na pele | Raio |
| Hoffmann | Câmara de mina no tiro encostado | Balística |
| Werkgaertner | Desenho da boca do cano na pele | Balística |
| Benassi | Anel de fuligem no osso | Balística |
| Bonnet | Orifício em funil no osso plano | Balística |
| Tardieu | Petéquias sob a pleura e o pericárdio | Asfixia em geral |
| Paltauf | Manchas hemorrágicas sob a pleura | Afogamento |
| Amussat | Rotura da camada interna da carótida | Enforcamento |
| Morestin | Máscara equimótica do rosto | Sufocação indireta |
Para decorar
- Sete ordens de energia: mecânica, física, química, físico-química, bioquímica, biodinâmica e mista.
- Espectro equimótico: vermelho, violáceo, azul, esverdeado, amarelo; a conjuntiva fica vermelha.
- Equimose: sangue nas malhas dos tecidos, sem cavidade. Hematoma: sangue numa cavidade nova.
- Queimaduras: 1º grau eritema, 2º flictena, 3º escara, 4º carbonização.
- Regra dos nove (adulto): cabeça 9%, cada braço 9%, frente do tronco 18%, costas 18%, cada perna 18%, períneo 1%.
- Raio: fulminação mata, fulguração lesa sem matar, figura de Lichtenberg. Corrente industrial: eletroplessão, marca de Jellinek.
- Insolação: sol, ambiente aberto. Intermação: calor, ambiente fechado.
- Primeira lei de Filhos: perfurante de médio calibre deixa botoeira, como cortante de dois gumes.
- Segunda lei de Filhos: mesma região, mesma direção. Langer: cruzamento de linhas, ponta de seta.
- Ferida incisa: bordas lisas, sem pontes, cauda de escoriação no fim. Contusa: pontes de tecido.
- Tatuagem resiste à lavagem; esfumaçamento sai com a lavagem; as duas indicam tiro a curta distância.
- Tiro encostado: câmara de mina de Hoffmann, sinal de Werkgaertner, sinal de Benassi.
- Ácido: coagulante, escara seca. Base: liquefaciente, escara úmida.
- Monóxido de carbono: carboxi-hemoglobina, livores rosa-carmim.
- Embriaguez: macaco (excitação), leão (confusão), porco (coma).
- Enforcamento: sulco oblíquo, ascendente, descontínuo. Estrangulamento: horizontal, contínuo. Esganadura: sem sulco, sempre homicídio.
- Afogamento em vida: cogumelo de espuma, manchas de Paltauf, diatomáceas na medula óssea.
- Choque: biodinâmica. Inanição e infecção: bioquímica. Fadiga e sevícias: mista.
Pegadinhas
| # | Errado | Certo |
|---|---|---|
| 1 | A equimose da conjuntiva segue o espectro equimótico e fica amarela com o tempo. | A equimose da conjuntiva fica vermelha até sumir. |
| 2 | O hematoma é o sangue infiltrado nas malhas dos tecidos, sem cavidade. | Esse é o conceito de equimose; o hematoma forma cavidade nova. |
| 3 | A ferida em botoeira prova o uso de faca de dois gumes. | Pela primeira lei de Filhos, o perfurante de médio calibre também deixa botoeira. |
| 4 | A ferida incisa tem pontes de tecido no fundo. | As pontes de tecido são da ferida contusa; a incisa não tem pontes. |
| 5 | A cauda de escoriação marca o início do corte. | A cauda de escoriação marca o fim do corte. |
| 6 | A zona de esfumaçamento resiste à lavagem. | A fuligem sai com a lavagem; a tatuagem resiste. |
| 7 | O sinal de Benassi é o desenho da boca do cano na pele. | O desenho do cano é o sinal de Werkgaertner; Benassi é o anel de fuligem no osso. |
| 8 | Fulguração é a morte causada pelo raio. | Fulminação é a morte pelo raio; fulguração é a lesão sem morte. |
| 9 | O ácido sulfúrico é cáustico liquefaciente. | O ácido é coagulante e forma escara seca; a base é liquefaciente. |
| 10 | A esganadura pode ser suicídio. | A esganadura é sempre homicídio, porque as mãos soltam quando a vítima desmaia. |
| 11 | As mãos de lavadeira provam que a vítima entrou viva na água. | A maceração aparece também no cadáver jogado morto na água. |
| 12 | A fadiga é energia biodinâmica. | A fadiga é energia mista, como as sevícias; o choque é biodinâmico. |
Fontes e data
- [1] Conteúdo de Medicina Legal consolidado nos livros didáticos da matéria. O tópico não tem norma técnica pública de referência.
Texto conferido em 15/10/2026.